APRESENTAÇÃO “PAINÉIS SOLARES” - Mara Rosa
Quarta-crescente 544, Risoleta C. Pinto Pedro
(parte 1 de 3)
"Em Novembro de 2025, em Évora, Mara Rosa, Maria Sarmento e Maria de Fátima Sequeira Remédios, três criadoras no âmbito de variadas artes, mas partilhando a suprema arte da Poesia, apresentaram generosamente o meu livro "Painéis Solares", numa belíssima e comovente sessão no Convento dos Remédios. Aqui se publicam os seus adoráveis textos que constituíram a luxuosa apresentação dos "Painéis Solares", de que tive, também, o privilégio de uma calorosa apresentação na Unicepe com Francisco Soares.
Agora, nesta rubrica a Norte, os textos do Sul, no dia em que se completam dois anos da partida da minha Mãe, importante personagem da minha vida e do livro, para lugar ignoto."
Risoleta C. Pinto Pedro
Fica em seguida o texto de Mara Rosa. Os restantes podem ser encontrados nos seguintes links: Maria Sarmento, Maria de Fátima Sequeira Remédios.
APRESENTAÇÃO v PAINÉIS SOLARES
29-11-2025 v CONVENTO DOS REMÉDIOS
1- A Autora
Risoleta C. Pinto Pedro, formada em Filologia Românica, leccionou na escola António Arroio. Escritora alentejana, multifacetada, desde inícios dos anos 90 publica livros: de contos, romances, poemas, libretos, ensaios... Escreveu a respeito da obra de Agostinho da Silva (A Literatura de Agostinho da Silva, Zéfiro, 2016) e da de António Telmo (António Telmo – literatura e iniciação, esboços para uma cartografia sobre pedra cúbica, Zéfiro, 2018). Anos antes, em Outubro de 2004, o próprio (António Telmo) apresentava, no Convento de S. Paulo, em plena serra d’Ossa o livro da escritora Venite in Silentio (Unicep, 2004), composto para ser coreografado pela Amalgama Companhia de Dança (eis a história contada pela nossa autora: https://siteantigo.unicepe.pt/quartas_5/q_205.html), também apresentado em Évora e Lisboa. Entre os mais de 20 títulos publicados, a exemplo da voz poética de Risoleta P. Pedro destaque-se ainda Kronos in Versus e As 5 Estações (ed. Sem Nome, 2023), A Glória da Invenção (Zéfiro, 2023) em coautoria com Pedro Martins; ou ainda o libreto 1976, A Evolução dos Cravos (2024), opereta musicada por Vítor Rua e coreografada, e encenada, por Iolanda Rodrigues. Esta opereta foi apresentada em Setúbal (Fórum Municipal Luísa Todi, 2024), com casa cheia, no âmbito da comemoração dos 50 anos do 25 de Abril de 1974.
2. A Obra de Risoleta P. Pedro é como uma árvore iniciática, cujas raízes se nutrem numa Arte Poética, no sentido que A. Telmo atribui à expressão. É árvore, de braços estendidos para o verbo, cuja seiva é voz de amor pela verdade cristalizada na narrativa. Uma verdade impermanente que se revela na clareza e na simplicidade expressiva desta autora de luz.
3. O Livro PAINÉIS SOLARES
A cópula da luz e da escuridão está presente desde logo no título da publicação em referência, Painéis Solares (59 + 58 pp., ed. Sem Nome, 2024). O livro, que aborda o mistério, a sombra, a noite, o feminino... começa a primeira palavra com “PAI” e a segunda com “SOL”. Sugere (sub-gera) desde logo a captação do calor do sol, símbolo da vida, pela escuridão, signo do eterno. Esta obra abre-se assim no circuito duma tríade de vida-morte-vida (v. Pinkola Estés). Porque não me ocorre síntese mais perfeita do livro aqui apresentado, cito T. de Pascoaes, em certa passagem do seu Duplo Passeio :
“(...) O momento presente é a mesma impressão de que vivemos, porque no vivido estamos mortos e no a viver estamos por nascer.”
Embora com uma abordagem muito individual (e feminina), o livro é inspirado em autores como António Telmo, Kafka e mesmo Pascoaes. Numa perspectiva catártica, trata a relação do narrador (e do leitor) com a ambivalente ideia de maternidade ausente (ambivalente porque tanto está presente na perspectiva da filha como na perspectiva da mãe). Dito de outro modo: relaciona o leitor com a ideia da ausência ou da imaterialidade da maternidade, em duas perspectivas que confluem ao centro do miolo unindo, num, dois livros.
Em ambos os livros, a ausência e a presença são leitmotiv: n’O Livro daVida das Crianças Mortas impera a ideia de ausência presente e no outro, Quando a Gente veio p’ró Egipto, de presença ausente.
Passo a explicar:
a) n’O Livro daVida das Crianças Mortas, o narrador atribui simbolicamente nome a filhos que partiram antes ou pouco depois de terem chegado – revalidando a existência de cada uma dessas crianças, assumindo as suas vidas e libertando-as assim duma ausência reprimida – primeiro socialmente e depois individualmente.
b) Por outro lado, em Quando a Gente veio p’ró Egipto, conhecemos uma filha que revisita interiormente a sua relação com a mãe. Nessa revisitação, a narradora descobre a matriarca na sua condição humana e nessa fragilidade ressignifica a sacralidade materna. Esfinge e Mãe tornam-se sinónimos – ambas espelham num olhar indecifrável o mistério do eterno indefinível. Olhar que activa na filha um fogo motivo transformador: a interrogação.
O conjunto, destes dois livros, absorve e reflete a luz que é vida velada na escuridão. Tem por título Painéis Solares. Reflectir é ressignificar, resgatar o sentido mágico da vida e encarar a morte – não como contrária à primeira mas como seu elemento constituinte.
Para concluir, dou nota de dois triângulos, inerentes ao livro, que encontramos na Arte Poética de António Telmo: a tríade do corpo físico-etérico-astral e a tríade vigília-sonho-sono profundo. Estando na primeira tríade representado o movimento destes seres que povoam o livro (os que quase existem e quase estão; e os que quase não existem e quase não estão), na segunda tríade sobressai omovimento criador deste livro, empreendido pela narradora na sua escrita de cura e catarse. Esta é sem dúvida uma arte poética onde o amor que dói é o mesmo que lene a dor.
Recorrendo de novo a T. Pascoaes, desta feita à “Elegia do Amor”, acrescento apenas que neste livro há algo que existe entre o que foi e o que é. Esse algo, por não ser é. A alma que sobe quando a folha cai.
Mara Rosa, Évora, 29-11-2025
(texto revisitado em 6-12-2025)
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