UM FELIZ “ACASO” ou PONTO DA SITUAÇÃO

Quarta-crescente 543, Risoleta C. Pinto Pedro

No recente fim-de-semana de 9 e 10 de Maio, aconteceu, no sábado, o lançamento do livro “Quem Cresceu Assim? Tomé Natanael!”, sobre os episódios da infância do filósofo António Telmo por mim contados, e ilustrados por um menino que agora já tem seis anos, mas cujas ilustrações datam dos cinco, e a quem tenho a alegria de chamar neto, Gabriel Pedro Martins. No domingo, um dos episódios contados, mas não contidos nesse livro, pois dele saltou para o palco com salto de leão, quando, com cerca de quatro anos, estando António Telmo em Moçâmedes, com os pais, roubou um leão a uma Senhora que o tinha ao colo, foi apresentado em forma de ópera para todos, mas especialmente pensada para bebés, com música de Rodrigo… Leão.

O propósito de reescrever as histórias da infância de Telmo, por si mesmo evocadas nas “Páginas Autobiográficas” do III volume das Obras Completas do filósofo, publicadas pela Zéfiro, com organização de Pedro Martins, estava em mim havia já alguns anos, mas vinha sendo adiado por contínuos projectos sem fim à vista. Porém, um dia, olhando os desenhos do menino que se vêm multiplicando a um ritmo quase inacreditável em quantidade e qualidade, vi que ali estavam as ilustrações de que eu precisava para as histórias, que imediatamente surgiram. Com a simpática e imediata adesão, quer do organizador e coordenador das obras completas, Pedro Martins, quer do editor da Zéfiro, Alexandre Gabriel, o livro aconteceu, e com cerca de um ano de antecedência, marcou-se unanimemente a data de lançamento para o dia 2 de Maio de 2026 quando António Telmo faria 99 anos. Já mais próximo da data, devido aos muitos afazeres do editor, esta andou a oscilar entre o dia 2 e o dia 9, tendo finalmente por ele sido fixada no dia 9. Devido ao excelente trabalho editorial e às belíssimas ilustrações, o livro ficou uma formosura, e nesse rigoroso dia 9, a acrescentar aos outros dois noves do aniversário, assim criando um sagrado e simbólico 999, o oposto do número da besta, reunimo-nos, autores, editor e a apresentadora Helena Maria Briosa e Mota, que não só é excepcional ser humano, escritora, investigadora ímpar e especialista, como ninguém, na vertente educativa da obra de Agostinho da Silva, foi também sua amiga e de António Telmo. Estiveram igualmente presentes, como declamadoras de alguns desses episódios do livro, mas narrados  pelas palavras de António Telmo no citado III volume das OC, quatro fadas da palavra: Célia Aldegalega, poetisa, escritora e gestora de artes, Luiza Souza Martins, terapeuta, formadora e poetisa, e, propositadamente vindas de Évora, Mara Rosa, ceramista, desenhadora e poetisa, e Maria Sarmento, que para além de ter sido amiga de António Telmo e de algum modo ter trazido o eco da voz dele na sua voz, é a admirada poetisa que todos reconhecem. Ainda presente, Ema Francisco, talentosa designer e autora do magnífico logotipo das comemorações do centenário (mas, apesar da juventude, também da imagem da Antena 1, da Antena 2 e da Antena 3), comemorações nesta sessão inauguradas por Pedro Martins, pois é na infância que tudo começa, e que se prolongarão por todo o 2027, nos cem anos, com a edição de várias obras, conferências e apresentações por todo o país, destacando-se a biografia, a quatro mãos, do filósofo, coordenada por Pedro Martins que com ele conviveu intensamente nos últimos dez anos da vida de Telmo e, apesar da obra original e própria, tem sido seu continuador e divulgador através da criação do “Projecto António Telmo. Vida e Obra” e da coordenação das Obras Completas.

Tudo isto aconteceu no espaço do Atelier da Graça, ao cimo da Rua Vale de Santo António, em Lisboa, sob o signo do patrono que dá nome à rua e à vista do Quartel de Sapadores, com os ainda existentes pombais onde, segundo notícia, pelo menos em 2012 ainda existiam aquartelados 25 pombos-correio, pequeno exército mercuriano da paz.

No sofá onde o menino se sentou para se apresentar enquanto autor das ilustrações, pousava uma das tradicionais andorinhas de Raphael Bordallo Pinheiro, andorinhas de que António Telmo dizia que enquanto existissem, seriam sinal de esperança do Quinto Império.

Ana Garcia, a arquitecta, artista plástica e professora, fundadora e responsável pelo espaço, ajudou o pequeno autor a desvendar um segredo por ele muito bem guardado para este dia, numa pintura que fizera em atelier e apresentada num cavalete para acolher os presentes.

Maria Sarmento perguntou ao menino como estava a sentir-se, e ele respondeu: “Estou muito feliz!”, assim expressando o sentimento geral do momento e do espaço, que, já sendo naturalmente luminoso, segundo todos testemunharam, e Ana Garcia posteriormente expressou, se alumiou ainda mais, para isso tendo contribuído o cintilação do livro sobre a bancada do editor e depois nas mãos de cada um, as crianças presentes, a exposição de desenhos e livros feitos pelo menino desde os quatro anos, as várias leituras e intervenções, nomeadamente a iluminante apresentação de Helena Briosa, que se dirigiu muito especialmente às crianças, e a presença de todas as cerca de sessenta pessoas que generosamente ali acorreram com o brilho da alegria e do amor.

Cada livro adquirido foi acompanhado de um cartãozinho prévia e propositadamente desenhado pelo Gabriel para oferecer aos presentes, e alguns postais com desenhos seus, por si escolhidos para o efeito, foram vendidos a quem quis colaborar numa doação à Acapo, associação de invisuais com uma das suas dependências na mesma rua do Atelier.

No dia seguinte, domingo dia 10, a Associação Setúbal Voz, artisticamente dirigida pelo músico, maestro e compositor Jorge Salgueiro e com a qual eu já colaborara através da escrita libretística, estreou uma ópera para bebés, intitulada “Quem roubou o Leão?”, como já dito, com libreto meu e música de Rodrigo Leão.

Para corresponder ao convite, escrevi não um, mas por opção minha, dois libretos, para o compositor escolher um deles, tendo guardado no meu coração o da minha preferência. Rodrigo Leão escolheu… o outro, tendo-me eu silenciosamente conformado, pois neste jogo secreto eu ditara a regra, e a regra era a liberdade de escolha do compositor. Eis senão quando, subitamente, com o processo em andamento, Rodrigo Leão decidiu mudar a sua escolha para… o libreto sobre o roubo do Leãozinho. Rejubilei e mais uma vez silenciei. Apenas no dia da estreia, no meio do contentamento após o espectáculo, lhe revelei, e aos presentes, este meu jogo secreto, que despertou surpreendidos sorrisos.

Não vale a pena falar da música de Rodrigo Leão, toda a gente conhece a sua originalidade e excelência, e a que compôs para esta ópera não ficou atrás. Também ganha já grande implantação o extraordinário trabalho que a Associação Setúbal Voz vem fazendo em Setúbal, com ramificações pelo país, continente e ilhas, o seu numeroso e qualificado naipe coral, instrumentistas e cantores solistas, nomeadamente os soberbos João Merino e Constança Melo, que deram voz a estas personagens, tão magnificamente representando como cantando. Com cenário, figurinos e comunicação de Maria Madalena, corporalidade de Iolanda Rodrigues, acompanhamento científico de Rute Silva, psicóloga clínica infantil, análise filosófica do texto de Pedro Martins (o que já acontecera com a ópera anterior e sucederá com a próxima, genial e originalíssimo conceito de Setúbal Voz), a encenação coletiva e a direção artística de Jorge Salgueiro.

Como “Quem roubou o Leão” passa a fazer parte de uma carteira de óperas para bebés (mas não só…) de Setúbal Voz, quem não pôde assistir desta vez, poderá ainda fazê-lo, sempre que, rodando os segundos domingos de cada mês, esta ópera, como cada uma das outras quatro, ciclicamente voltar ao palco, estando também prevista a possibilidade de deslocação aonde houver um chamado, para isso bastando os interessados contactarem a Associação Setúbal Voz.

Tivemos então António Telmo em alta rotação num mesmo fim-de-semana, pelos seus 99 anos. Ora nada disto foi visivelmente coordenado, e, no entanto, repetidamente aconteceu contar-se a história de um menino depois filósofo chamado António Telmo. Tó, como os meninos lhe chamavam, ou Chinês, por causa dos olhos semi-rasgados, e ainda Tomé Natanael, como ele mesmo, em exercício cabalístico de Temúria, designou e revelou o seu alter-ego. Em forma de livro, em forma de ópera. Se tivéssemos desejado esta confluência, se a tivéssemos explicitamente planificado, talvez não tivesse sido possível.

Tenho aprendido, pois é assim que as coisas funcionam e é assim que a máquina do mundo rola, que, embora tenhamos de fazer o indispensável trabalho de casa, não precisamos nem devemos manipular os resultados, pois existe, augures, ou nenhures (há quem lhe chame campo ou não localidade), uma consciência (podem designá-la com um diminutivo, uma alcunha ou dar-lhe um nome de alter-ego, de deus, anjo, duplo ou natureza, é indiferente), mas que a há, há, que organiza, às vezes desorganizando, uma forma superior e para nós incompreensível de organização, que organiza, repito, o que nunca conseguiríamos, e que por vezes nem logramos sonhar ou imaginar. Tenho também aprendido, à minha própria custa, que não é nos momentos felizes que aprendemos. Não que não sejam indispensáveis, são uma espécie de tempos de repouso, de pausas ou porto seguro, respiração e alento para prosseguirmos, lamber de feridas. E o difícil é não esquecer, durante as provas, que são só provas, e durante o repouso, que é só repouso. A tentação é fugir de umas e ficar no outro. Em casos patológicos, o contrário. O mais saudável e eficaz é aproveitar bem as provas e, enquanto dura, desfrutar e agradecer o repouso.

Este fim-de-semana, apesar do cansaço, foi um feliz momento de repouso e terminou em provas, que se transformaram em serenidade e repouso.

 

  
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