APRESENTAÇÃO “PAINÉIS SOLARES” - Fátima Remédios
Quarta-crescente 544, Risoleta C. Pinto Pedro
(Parte 3 de 3)
"Em Novembro de 2025, em Évora, Mara Rosa, Maria Sarmento e Maria de Fátima Sequeira Remédios, três criadoras no âmbito de variadas artes, mas partilhando a suprema arte da Poesia, apresentaram generosamente o meu livro "Painéis Solares", numa belíssima e comovente sessão no Convento dos Remédios. Aqui se publicam os seus adoráveis textos que constituíram a luxuosa apresentação dos "Painéis Solares", de que tive, também, o privilégio de uma calorosa apresentação na Unicepe com Francisco Soares.
Agora, nesta rubrica a Norte, os textos do Sul, no dia em que se completam dois anos da partida da minha Mãe, importante personagem da minha vida e do livro, para lugar ignoto."
Risoleta C. Pinto Pedro
Fica em seguida o texto de Fátima Remédios. Os restantes podem ser encontrados nos seguintes links: Mara Rosa, Maria Sarmento.
Apresentação “Painéis Solares”
Risoleta Pinto
O Feminino na Obra
“Leitura escolhida: página 54 de ambos os lados e página 19 do Livro das Crianças
“O homem ignorante vê apenas o muro intransponível da morte que parece esconder para sempre os seus amigos queridos, mas o homem que não tem apegos e ama a todos como manifestações divinas compreende que, com a morte, os seus entes queridos apenas regressam a um espaço onde respiram a alegria em –Deus.”
Autobiografia de um Yogue, Paramahansa Yogananda
INTRODUÇÃO
“A que cheira a Mãe do Menino?”
A pergunta, na obra, evoca a ternura de um mar longe e cerca, perdido ou pressentido no nosso inconsciente e achado em sensações de segurança, calor, aconchego, amor.
Foi na água que durante o tempo de gestação aprofundámos o primeiro elo com a mãe. A que cheiram as mães? O que sentimos nós ao inalar esse que é o primeiro odor a perfumar o nosso sentido quiçá mais instintivo, perfume boas-vindas ancorado no mais amoroso colo.
Inicio este texto dedicando o mesmo à extraordinária Mãe de um excepcional Filho, Maria, mãe de Jesus, às extraordinárias mães e extraordinários filhos existentes em todos nós e à grande Mãe Cósmica cujo colo, afago e consolo talvez consigamos também sentir ou pressentir, ao deixar o olhar interno vagar até ao grande mar, coração, útero. Mar que embala e liberta o sono, ou desperta do sono, como desperta se apresenta esta obra lúcida, ainda que consciente da existência, ou até necessidade, por vezes, de dormir. Sono enquanto ressaca dos momentos em que não se repousou na mãe, forma peculiar de ressaca, talvez sentir coletivo que nos impele para um despertar maior.
Extraordinários, as mães e os filhos. Excepcional, também, esta obra, demandando uma reflexão de igual porte. Ousemos, como Risoleta ousou, respeitosamente, amorosamente, a partir do coração pérola, pedra preciosa, eixo a partir do qual se procura reflectir o feminino. Extraordinárias, as mulheres, vogais da terna emoção. Na página 22, podemos ler que as “vogais, do alfabeto, no seu conjunto, pertencem ao principio feminino, segundo Jacob Grimm”.
Quer-se esta abordagem debruçar na janela de gentileza, tão própria da natureza feminina. Terna é igualmente a mensagem que se anuncia logo no início de uma das partes, a da lógica natural presente na constatação de que deveríamos usar dessa gentileza no trato para com o outro perante a evidência do quão “radical é”, e do quão efémera pode ser, “esta experiência de se andar pelo mundo”.
Correndo o risco de não ter conseguido abarcar inteiramente, ou em algum momento, a mensagem, espero, ainda assim, conseguir honrar o trabalho generoso da nossa querida autora amiga. A esta envio um grato beijinho, pelo convite, assim como a quem bem me acolheu no caminho, e aos presentes, pela escuta carinhosa, naquilo que constituiu um acender ou recordar de uma luz maior, numa inesperada e inspirada estrada de espanto.
DESENVOLVIMENTO
Sentir. Sentir, sensações, sentidos. Sentir profundamente como talvez sinta a própria Terra.
Da Terra e da mulher, o ímpeto de cuidar, e da filha a força para se refrear, de modo a não ser “mãe da mãe”. E para aceitar quando não se é já o cuidador, ou o principal cuidador, ou indispensável. A dor e o amor; o motor para não retirar a mãe do lugar onde encontrou conforto. Da terra e da mulher, o tremor como forma de libertação física. Da Terra e da mulher ser taça, frescura e calor, abundância, estrutura, pilar, determinação, razão, doadora da criação.
À terra pertence também a pedra, a misteriosa pedra, várias vezes presente em ambas as partes da obra: na sopa de pedra da Geografia, em que a mãe consegue levar a mó ao seu moinho, indo a Fátima, como era seu desejo, numa subtileza estratega tão tipicamente feminina. Fez-se consoante a sua vontade, sem imposição, sem discussão. O pai, cúmplice silencioso desde o início, deixa-se levar numa anuência bem-disposta; há também a pedra que foi colocada atrás do pneu traseiro do carro quando pai e mãe se viram à beira de um precipício, não tendo o travão cumprido cabalmente a sua função. A mãe que, no nascer, se revelara heroína mesmo sem o poder ser é, no episódio desta pedra salvação da queda, “a heroína que sempre a mãe fora”. Outra pedra ainda, ou trampolim, ajuda no emergir da mulher milagre “que põe travão ao medo”, em rendição, exemplo de serviço na queda para cima.
Evocando o querido filho, Petros, alude-se, na página 35, a uma “primeira pedra de uma difícil construção”. E cada um dos meninos nomeados é pedra preciosa na organização de um plano. Seguem-se, pois, um a um, os retratos, para a completude, aludindo às pedras fundamentais, a sua nomeação evitando a hipótese de se pôr em causa a estrutura do edifício”. Assegura-se que “se alguém alguma vez compreendeu as pedras e os astros, foi sem dúvida um ser sublime”, “ou uma mãe que perdeu um filho antes do nascer. Ou esse filho, nascido ou não nascido”.
Tal como a pedra, também da terra são os ossos, que protestam e se ressentem de tanto querer apoiar, ajudar, controlar, não sendo o seu propósito tal excesso.
Portadoras lendárias da visão e da intuição, as mulheres. Visionárias, como o foi a experiência na Serra d’Ossa, onde, em amorosa contemplação, a autora viu uma “outra realidade dentro, abaixo ou acima...”, acedendo a um olhar interior que transpõe o corpo. Este não se interpõe sólido entre ela e a realidade do outro lado; “Para além da desordem, mostra equilíbrio, estrutura e regularidade”.
Entende-se, ou relembra-se, assim, a mulher que procede como Mestre “sem ter estudado alquimia”, em experiências profundas como a atrás descrita, mas igualmente em episódios do quotidiano, como quando mede os ingredientes da culinária com total concentração, a mesma com que corta a alface de forma espantosa ou desenforma o bolo como quem retira o ser que nasce do útero. Essa mulher “sabe o valor do detalhe, do gesto, do toque, da seriedade com que se deve entrar e estar na cozinha”. Mulher sacerdotisa e mulher fortaleza, guarda no seu interior a memória dos segredos mais profundos dos gestos da dança, do corpo, da alma; forte no desvendar da sua fragilidade, partilhando a dificuldade sentida outrora, por vezes, no abraço à mãe, pois como abraçar aquela que, quando jovem, a punha em sentido por dentro, por nela pressentir o sobrenatural, por ser a sua palavra a iminência de uma revelação? Mulher coluna que mostra e oculta o lado de cá e o lado de lá do mar. A mulher, aqui, é o mistério ou sua mensageira, a Esfinge, “o que poderia ver se visse o que não posso”.
Na idade adulta, tão fácil abraçar a mãe! E com que amor deseja rodear com os braços o planeta e abraçar com os olhos as estrelas!
Da mulher, por vezes, o temor perante o declínio, pois que a beleza dela comummente se emparelha. Como assistir impassível perante a rosa que perde a sua frescura? Não esquecer, porém, da fragrância superior por ela libertada nesse momento, da formosura que há “na quietude”, “no poder que está na dependência” ou “o conhecimento que exige seguir a vida em todo o esplendor da descida”. Mulher, mulher coluna, pilar do lar, estrutura e determinação, como a Terra, cuja inclinação, como a da nau em mar ligeiro, por vezes nos dá tempo para que nos habituemos à ideia da sua perda de vigor, mas que por vezes desmorona de forma súbita, aturdindo como se perante iminente naufrágio!
Como filha, aprender a ser água que flui,em flexível aceitação de que a coluna se “tornou ave a levar com cuidado na barca”. Mulher cíclica como a cíclica lua e a cíclica terra, sábia és, quando aprendes a despojar-te, a esquecer, a desaprender, a limpar o olhar. A regressar, num silêncio confirmação de que “é o que está por detrás das palavras que mais conta”.
Do Ar, a “alegria que traz as palavras com ela”, um júbilo despontado na contemplação da foto do menino amado. Do ar, a mulher, expressão para fora, “luz ou vibração do espírito, transporte de um eco inatingível e ao mesmo tempo de uma proximidade surpreendente”, expressão “que não podemos perder, sobretudo se caminhamos por estrada desconhecida”.
Do Ar, a letra F, “da clemência suspensa na esfera das sopradas”, “rendição testemunho de sabedoria maior”. No ar anda tantas vezes a mulher de imaginação fértil, como a fértil terra, quando faz o bolo imaginando que as suas mãos são as mãos da mãe. Nessa criação, bolo ou cozinhado, o perfume mágico da cozinha adoçará toda a casa. Perfume de amor também no aspergir da mãe aquando da visita ao lar, ponto alto da semana!
No Fogo , a coragem , a transformação, a paixão, a vitalidade, o vigor. Pelo fogo vem muitas vezes o caos, a destruição, a momentânea confusão. Como intrigante foi o episódio da queda durante um passeio com os cães, no qual a autora perde momentaneamente a memória ou consciência de si, ou o encontro com o vendedor intrujão, que, afinal, a ajudou a compor o Fogo no Lar. Na contemplação daquela constelação hermética recriada no altar, Risoleta sentiu “Que estava tudo bem”, testemunho da ordem perfeita das coisas, paz reflexo da confiança de que tudo tem um sentido. Momento de paz em que, pelas raízes, o coração “pulsa com os veios da terra”.
Ar que faz voar a fértil imaginação no sonho poema em que “as letras pareciam ovelhas brancas, e nos intervalos entre as palavras e entre as linhas corriam rios de leite que iam encher o mar” onde flutuavam “caravelas de velas brancas” e onde Fénix surge sobre um Unicórnio, “de barco em barco a recolher os versos, que sugava como leite fresco de virgem”.
A água origem da vida, o leite nutridor do amor.
Conclusão
Nesta apresentação, 5 sentidos e 4 elementos, porventura abraçados pelo encanto unificador do éter e pelo amor segredado do Divino. Água e terra, mais femininos, ar e fogo, relembrando o aspeto mais varonil dos seres.
Nesta apresentação, a Mulher que se expressa, som tocante, com a firmeza da Terra, expressão que, no céu, são as conversas com as estrelas filhos. Também, o silêncio, condutor, estabelecendo uma ponte portal até aos que já estão do outro lado do véu, ou relembrando o que verdadeiramente importa, quando, numa mãe, parcas já são as palavras. Alicerçado pelo Fogo em homenagem aos antepassados queridos, ergue-se o altar, envolvido pela água das emoções, e voltamos ao sentir, neste movimento espiralado tão tipicamente feminino, envolto e revelado em perfumes de amor, visões evocadoras, sons sagrados, abraços perdidos e encontrados, paladares refinados.
Mulher barca, colo, coluna, esfinge, esperança, vida e amor, no navio que és, no mar que somos, podemos ir e voltar com valentia e fé, pois a matéria é translúcida para quem vê essa linha, que não é do mundo, “linha mais afastada do horizonte”. Navegar além da coluna que separa o cá do lá, ligando a Terra e o Céu, mostrando que “Não é preciso guião para atravessar o espanto”. Mulher que zela pela justiça, que dá realidade ao que foi real e vê na irregularidade “a chave capaz de abrir o entendimento para o sentido”, se nos permitirmos voar.
Que seja então o guião a nossa Alma, pois ela saberá Voar, adentrando no texto, e encontrar o espanto por tamanha explosão de Luz.
Fátima, 29 de Novembro de 2025
risoletacpintopedro@gmail.com
http://aluzdascasas.blogspot.com/
http://www.facebook.com/risoleta.pedro
https://www.facebook.com/escritoraRisoletaCPintoPedro