APRESENTAÇÃO “PAINÉIS SOLARES” - Maria Sarmento

Quarta-crescente 544, Risoleta C. Pinto Pedro

(Parte 2 de 3)

"Em Novembro de 2025, em Évora, Mara Rosa, Maria Sarmento e Maria de Fátima Sequeira Remédios, três criadoras no âmbito de variadas artes, mas partilhando a suprema arte da Poesia, apresentaram generosamente o meu livro "Painéis Solares", numa belíssima e comovente sessão no Convento dos Remédios. Aqui se publicam os seus adoráveis textos que constituíram a luxuosa apresentação dos "Painéis Solares", de que tive, também, o privilégio de uma calorosa apresentação na Unicepe com Francisco Soares. 

Agora, nesta rubrica a Norte, os textos do Sul, no dia em que se completam dois anos da partida da minha Mãe, importante personagem da minha vida e do livro, para lugar ignoto."

Risoleta C. Pinto Pedro

Fica em seguida o texto de Maria Sarmento. Os restantes podem ser encontrados nos seguintes links: Mara Rosa, Maria de Fátima Sequeira Remédios.

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Painéis luminosos - Vida, Morte e Redenção

Para analisar um texto, para encontrar o fio que permite atravessar os vários níveis de interpretação que vão do literal ao anagógico, é mister simpatizar com as palavras, essências em si mesmas, e com a sua relação com os símbolos. É preciso intuir os seus significados, relacioná-los com outros símbolos, compreendê-los e aspirar ao dom da Graça, à contemplação da luz que ilumina os sentidos do texto. Não conseguimos ir tão longe na nossa demanda hermenêutica, mas reconhecemos, desde logo, a chave que pode elucidar o seu sentido profundo. As palavras e os nomes são os sinais. As luzes do caminho.

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Neste novo e, curiosamente, livro duplo de Risoleta C. Pinto Pedro com o título comum de Painéis Solares e dois títulos sugestivos: O Livro da Vida das Crianças Mortas e Quando a gente veio pr’o Egipto são-nos reveladas as palavras que os iluminam e nos servem de guia nesta viagem pelos textos. As palavras que nos surgem de imediato são: “Luz”, Árvore”, “Redenção” e “Reverberação”, em muitas das suas combinações e sentidos. Assim nos acompanhe o pensamento a figura tutelar de mestre António Telmo que de lá de onde ele está e de cá onde sempre fica nos seja, como foi, guia e luz quase sem darmos por isso.

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A força, a floração e a frutificação da matéria deste precioso livro tem as suas raízes no que irradia da vida e do seu mistério mais fundo que é, simultaneamente, «aterrador», «apaixonante», «redentor» e «radiante», como é notado logo na introdução pela autora, que refere com espanto o haver quem consiga “do horror” “extrair o brilho”. (Q.g.v.p.E., p. 8). O que faz mover a autora é a experiência vivida intensamente, pois só desse modo pode sair do individual e interessar a todos. A expressão disso é “confirmada” na leitura de Risoleta do que António Machado designa de “los universales del sentimiento”. É aí que a autora diz situar-se. Nesse plano se move o carácter emotivo da sua paradoxal “ficção biográfica”.

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Nas reflexões iniciais sobre a sua escrita salienta-se (e cito) “A expressão é luz ou vibração do espírito, transporte de um eco inatingível e ao mesmo tempo de uma proximidade surpreendente.” (L.d.V.d.C.M., p.6). Repletas de luz, ritmo emoção e intenso lirismo são muitas das expressões que irradiam do verbo de Risoleta, o iluminam e nos iluminam.

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Este é um livro singular que foge ao enquadramento nos limites das tipologias literárias convencionais, A sua hibridez é ela mesma um desafio, desviando-se das definições da tradição literária formal e de género. Apraz-nos aceitar a proposta de alguém que designou este livro de “ensaio biográfico de cariz épico-poético”. Faz todo o sentido. Nas narrativas e reflexões nele presentes é trazido à luz o que estava oculto na sombra. Os testemunhos são reveladores de experiências vivenciais marcantes; a linguagem faz uso de uma “gramática” poética singular; os sentimentos expressos são universais e as reflexões aproximam alguns textos do discurso ensaístico.

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É um livro sem tempo ou de um tempo glorioso. O passado é resgatado pela atribuição de um nome às crianças que não chegaram a nascer ou cuja vida foi apenas um breve relâmpago. Um sopro.

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Podemos dizer que há na construção dos textos uma suspensão do tempo linear, uma superação do mesmo, quer pelo modo fragmentário como a narrativa se apresenta, quer pelos diálogos interrompidos e imaginados entre uma filha e uma mãe esquecida das palavras; quer ainda pelo resgate do passado actualizado em narrativa que se faz mundo manifesto pelo ‘verbo-corpo-estrela’ das crianças que nunca chegaram a nascer ou partiram demasiado cedo.

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Redenção e resgate são o sentido fundo da matéria, da matriz desta escrita que podemos designar de operativa, como nos segreda António Telmo, definindo-a como: “eficaz, (…), capaz de nos curar da dor e de nos libertar do mal”. Salvífica, portanto. De cura, de refrigério e de bálsamo para os protagonistas da “tragédia colectiva” e para todos nós: mães, pais, filhos e leitores.

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Refere Marc-Alain Ouaknin, rabi, escritor, professor e filósofo que “ler é curar”. A leitura possui propriedades terapêuticas individuais e colectivas. Isto é válido não só na interpretação dos escritos sagrados como na das narrativas que elevam a condição humana, como é o caso deste livro. Nesta obra são expressos os sentimentos de compaixão pelo sofrimento da perda no abismo do mundo de nós mesmos e dos “nossos” mortos e, simultaneamente, resulta na pacificação da culpa e da vergonha das mães que, tendo gerado, não puderam guardar e receber os seus filhos vivos. No mesmo passo, são salvas do esquecimento as crianças mortas, atribuindo-se-lhes um nome.

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A escolha dos nomes das crianças não é, nem poderia ser, aleatória. A origem, a raiz desses nomes é predominantemente grega, hebraica, árabe e também latina. São nomes revestidos de poesia, de sacralidade e de heroísmo que nos remetem para o alto, para a Luz e para a Glória. São nomes de estrelas luminosas e intensas, brilhando em distantes galáxias; são nomes plenos de significados simbólicos: «árvore», «fogo», «pedra», «olhar» «sabedoria»; «vida», «lua» e «navio; nomes bíblicos de arcanjos, de lugares e de atributos de Deus. Temos a dança e os instrumentos musicais: a harpa e a viola. Temos criaturas de luz. Temos o nome da Origem, da Mãe de Deus, a pérola brilhante e o fogo das cinzas renascido. Temos uma galeria fortemente investida de sagrado e de sugestões poéticas.

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Se há vida nas palavras, se nelas há geração e potência, a elas é dada a criação, o dom da vida. São os nomes os sinais que iluminam o Livro da Vida das Crianças Mortas. Pela dádiva do nome é criado um caminho de encontro das mães com os seres gerados no seu útero tornados luz, estrelas, anjos, fogo, música e dança sagrada. Há mistérios no alfabeto, nas letras e no corpo que estabelecem entre si relações ontológicas e ocultas surpreendentes.

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Nesta ‘galáxia’ de nomes, que trazem à vida os esquecidos e os ocultos, se mostram os sentidos simbólicos dos textos. Também nos diálogos que se estabelecem com a Mãe e com o seu poder de “Coluna” do Equilíbrio e também de “pilar da Severidade”, situado no lado esquerdo da “Árvore da Vida” que é, no plano do macrocosmo e do microcosmo, a chave para a compreensão dos mundos e do Homem: dos pés à coroa e da coroa ao reino, de Malcuth a Keter.

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Se a árvore da Vida representa o Homem primordial, a Kabbalah esclarece os mundos místicos e tudo o que existe e existirá na e para além da realidade do quotidiano elevada a um plano espiritual. Os acontecimentos, mesmo os aparentemente mais banais e comuns, estão carregados de Sagrado, sendo o real espelho nos dois sentidos: o que faz correr a seiva e o que  transmuta os elementos. O que está em cima é como o que está em baixo para realizar o milagre de uma só coisa, o Uno, como é referido na Tábua Esmeraldina,que está na origem de toda a transformação alquímicae na Árvore da Vida, que é do mesmo entendimento. É como o sangue que circula entre os mundos: da emanação, da criação, da fundação até ao mundo da acção, ao reino manifestado. Tudo ligado pelo poder da energia das letras, dos nomes e das palavras.

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Processo alquímico e árvore da Vida, eis o que pode “ler-se” nestes livros! A árvore sefirótica e a “gramática secreta” presentes nas palavras que constroem as narrativas. Esses nomes, essas letras-potência dão um sentido outro ao que é escrito e vivido. Elevam-no a níveis mais profundos e misteriosos contidos na sabedoria cabalística inspirada no pensamento de António Telmo, “o Lúcido”, como a ele, justamente, se refere a autora, na dedicatória de um dos livros.

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É por esse caminho que seguimos: o caminho da autora e do filósofo. Os nomes, já o dissemos, são as luzes e os sinais. A árvore da Kabbalah surge-nos com as suas esferas luminosas, as Sefiroth, as tríades e os mundos iluminados pela Gramática Secreta da Língua Portuguesa, obra maior do pensamento télmico, ouvida e lida por quem nele bebeu, ainda que imperfeitamente (como é o meu caso), o sentido e os sentidos.

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Não cabe aqui explanar a razão de ser 10 o número dos elementos que constituem as Sefiroth e de serem 22 as consoantes do alfabeto da Língua a elas associadas. Não cabe aqui seguir os 22 caminhos da árvore da vida e das consoantes da Língua: os seus rumores e sopros, a explosão dos seus sons, o movimento giratório e vibratório das letras. O reino de Malcuth onde vibra a letra “R”, densa e plena de movimento vibratório, do nome de «Risoleta». Não cabe aqui explicar a força de acção das vogais claras e escuras e das suas combinações que agem no nosso corpo. Esta é uma sugestão de leitura que queremos deixar.

Por fim, a impressão que me fica do que disse e não disse é a de que num livro de tal dimensão muito fica sempre por dizer. Apenas abrimos um ou outro véu para espreitar um especial “laboratório alquímico” do lar. Sentir a impotência de uma filha perante a impossibilidade de cuidar de quem a cuidou; sentir a percepção da transformação da Mãe, coluna e suporte do mundo, em Filha, e de uma Filha em Mãe, invertidos ou completos os papéis e o sentido. Haverá outras interpretações que abranjam estes e outros aspectos da obra. Que me seja permitido dizer que este livro provocou em mim um efeito benfazejo e libertador e que, se houver escuta e entrega, será o que os leitores também experimentarão ao lê-lo.

Concluídas que estão as passagens, ainda que breves, pelas letras e palavras que me foram sinal, volto a lembrá-las: «Luz», «Árvore», «Redenção» e «Reverberação», fica-me, neste não dizer tudo, um mundo de possibilidades interpretativas sempre dinâmicas e diferentes. Finalmente, seguro este livro nas mãos. Guardo-o no coração, pois que foi criado com Amor, surgido da Vontade, o mesmo é dizer da Luz manifestada no Mundo. Recebo-o respeitosamente e com cuidado pelo receio que tenho de “quebrá-lo” ou de perdê-lo e ao seu sentido mais profundo.

Muito grata a Risoleta e a todos os que tiveram a paciência de me escutar.

O meu bem-hajam! 


Maria Sarmento (texto escrito em Évora, em Fevereiro, com ligeiras alterações em Outubro de 2025.)

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