MÉDICOS E PROFESSORES
Quarta-crescente 549, Risoleta C. Pinto Pedro
MÉDICOS E PROFESSORES
Estive, recentemente, por razões que não têm a ver com esta crónica, num centro de atendimento médico onde fui tratada por dois médicos, por o segundo ter rendido o primeiro.
O episódio que trago hoje não se passou no âmbito do Serviço Nacional de Saúde, mas poderia ter acontecido. Há lá muito bons médicos. Estes dois tinham características comuns: a simpatia, o profissionalismo e a competência, a humanidade.
Fiquei espantada por, por exemplo, ambos me terem perguntado qual era a minha profissão antes de me ter aposentado. Mais espantada ainda, porque não o fizeram de forma mecânica, mas especialmente interessada. E como se isso não bastasse, mostraram-se ambos genuinamente encantados por estarem perante uma professora. O primeiro assinalou, até, com um sorriso, que algumas palavras do meu vocabulário só poderiam ter sido expressas por uma professora. Recordo-me, por exemplo, do termo “obnubilado”, para mim normal, mas que ele registou como algo de incomum. E face ao peso da minha mochila, carregada, como habitualmente, com material de escrita e livros, assinalou e valorizou o facto como quem se apercebe de que ainda existe algum valor no mundo, mas que isso já é raro. Era um jovem médico. O segundo, já não tão jovem, fez igualmente uma reverência à minha profissão, e quando me deu alta e nos despedimos, levantou-se, retirou a máscara que tinha estado a usar, cumprimentou-me respeitosamente e desejou-me enfática e sinceramente as melhoras, rematando com um “precisamos muito dos professores”.
Vim de lá pensando em tudo isto. Médicos e professores são duas das profissões ameaçadas de risco de desaparecimento pela IA, o comportamento destes médicos demonstra o contrário, que por muito útil e beneficiosa que possa ser a inteligência artificial para os humanos, é sempre necessário, e cada vez mais, que nos valorizemos mutuamente, mesmo nas nossas insuficiências e imperfeições. Se tal acontecer, não há que recear nenhum tipo de inteligência artificial, pois os riscos que dali vêm são os nossos próprios vícios projetados sobre aquilo que criámos. E ela apenas nos vem mostrar as nossas fragilidades. Por isso, é necessário conhecê-las e corrigi-las. Não é dentro da IA que é preciso fazer melhoramentos, é dentro de nós, depois de nos conhecermos um bocadinho. O resto vem por acréscimo.
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