As livrarias em que devia ser proibido de entrar...
Excerto de “A lagartixa e o jacaré”, crónica semanal de José Pacheco Pereira na revista Sábado.
As livrarias em que devia ser proibido de entrar...
...porque gasto dinheiro a mais: em Lisboa, por exemplo, a Letra Livre ou a Travessa; no Porto, a Unicepe. Como no dia em que estou a escrever este artigo cometi o pecado de lá ir, falarei aqui apenas da Unicepe.
Acabei de lá comprar seis livros e várias revistas. Desses seis livros, um já tinha notícia dele, o livro de José Eduardo Franco sobre a inveja; os outros cinco nem sabia que existiam. É por isso que a Unicepe é obrigatória no Porto.
Acresce que a Unicepe é uma das raras sobrevivências das livrarias criadas antes do 25 de Abril no âmbito do movimento estudantil e da oposição, tendo na sua origem os setores culturais e estudantis ligados ao PCP. Nos conflitos entre os esquerdistas e os comunistas nos movimentos políticos estudantis do Porto, a Unicepe era um dos baluartes do “revisionismo” do PCP e esses conflitos, na época, estavam sempre no limite da pancadaria, e nalguns momentos ultrapassavam mesmo os limites. A Unicepe chegou a proibir alguns esquerdistas de lá entrarem com a acusação de que “roubavam” livros. Com o tempo, o grande apagador, tudo isso foi esquecido e a Unicepe, uma cooperativa livreira, sobreviveu a essa época e bem.
Hoje, para além de um polo cultural do Porto, um local onde sobrevive o Esperanto, é uma excelente livraria para quem gosta de livros e revistas que não são o papel pintado dominante nas livrarias. Não tem livros de autoajuda, mas ajuda quem gosta de encontrar livros.
Texto escrito segundo o anterior acordo ortográfico.