O SILÊNCIO DA BOA LITERATURA

Quarta-crescente 548, Risoleta C. Pinto Pedro

Ainda não tinha lido Dois Jornalistas, novela de 1951, a última obra publicada em vida de Pascoaes. Cada vez que a abria era tanto o encantamento, que ficava à espera de tempo distendido para saborear tal pérola. Isto sucedeu por várias vezes. Até que, precisamente no pior momento, naquele em que trabalhos me retêm com o máximo de severidade, justamente agora, não consegui resistir. Penso que terá sido o ter estado recentemente no Porto que me despertou para esta urgência tão adiada, como quem prolonga, de forma subtil, a estadia.

O livro surge quando no país se vivia uma transição para a consolidação do autoritarismo e da censura, e no escritor, um culminar de carreira.

Mas o que me interessa nesta leitura é de que modo dialoga comigo, ou eu com ela. Cada parágrafo é uma paragem, porque cada asserção é um espanto estético. Por vezes, a paragem é quase geográfica. Se estivesse no Porto levantar-me-ia quase a cada página e iria revisitar cada lugar aonde o livro me conduz. O primeiro foi a Praça Nova, que saboreei com estranheza:

«Apeei-me, na Praça Nova, duma espécie de carro fabuloso, o de Adonai, a despedir relâmpagos das rodas…»

Só mesmo o olhar de um escritor tão singular veria, nas chispas de um eléctrico, a Merkabah, misto de trono e carruagem da célebre visão do profeta Ezequiel.

Nunca, nas minhas deambulações pelo Porto, me encontrei numa “Praça Nova”, afinal hoje, e a partir de 1910, a Praça da Liberdade. O que faz sentido em termos cronológicos, uma vez que a acção se situa no dobrar do século.

É muito interessante o olhar profundo e crítico, logo, muito pouco provinciano, com que caracteriza a cidade como «um pesadelo mineral e psíquico», que logo à partida desmente a tendência de alguma literatura crítica para confundir o enraizamento de Pascoaes com provincianismo intelectual e por causa de algum, por vezes, isolamento e sentimento de saudade e nacionalidade, contrapor a sua atitude ao cosmopolitismo de Pessoa, ignorando o iberismo de Pascoaes, a sua ligação a Espanha e até mesmo à Europa, e ignorando, sobretudo, a elegância e o requinte de pensamento e expressão que seria impossível encontrar num escritor confinado a uma serra. Quando define a cidade como «essa vilória inchada desmedidamente», que também eu sinto em algumas cidades sem saber dizê-lo com esta genialidade, está a ser quase profético, antecipando a proliferação actual de cidades, que de tal apenas possuem a extensão e o número de população, cheias de «industriais, banqueiros, médicos, juízes, negociantes, advogados, burocratas, padres, militares, e outros falsificadores do ser humano».

Profundamente ligado a Amarante, ao Marão e a Portugal, isso não o impediu de na serra receber o mundo e dela sair para viver algum tempo em Londres. Não só foi viajado, como manteve, a vários níveis, uma notável comunhão intelectual internacional.

Viajou por Espanha, onde, em 1918 fez conferências com Eugenio d'Ors (Barcelona), e em 1923 visitou Madrid e a Residencia de Estudiantes, entrando em contacto com o círculo de García Lorca e outros escritores.

Para não falar de Lisboa, onde passou vários Invernos e onde frequentava o cosmopolita Chiado. Não pode ser remetido ao eremita isolado de Gatão, que uma certa imagem tenta fazer dele, pois viajou, recebeu e manteve correspondência com escritores estrangeiros, para além de ter os seus livros traduzidos.

E tão tranquilo se sente no seu provincianismo cosmopolita, que exalta, sem medo ou preconceito, as qualidades que na aldeia se adquirem e na cidade se perdem:

«Quem foi criado na aldeia, é mais ou menos franciscano ou panteísta, e acaba por entender as falas silenciosas de que reza o sacro poeta das “Orações”. Mas no ruído das cidades perdemos o íntimo ouvido musical, capaz de ouvir as “falas silenciosas”».

Afinal, foi no momento certo que iniciei finalmente a leitura de Dois Jornalistas, pois no meio do ruído do excesso de trabalho também se corre o risco de não ouvir o subtil som que sempre nos acompanha, e que neste livro se encontra. Como numa serra.

Tão seguro se sente Pascoaes, que não hesita em desmascarar a maquilhagem com que as cidades se disfarçam:

«Direi que a iluminação municipal é feita dos desgostos dos munícipes: uma iluminação anémica ou anímica, toda em revérberos doloridos e estertorosos, ao vento da barra, como almas a despegarem-se dos corpos».

As cidades, e o Porto não é excepção, melhoraram em alguns aspectos e pioraram em outros. Contudo, existe ainda no Porto, porque é do Porto que hoje falamos, um silêncio natural e sadio de serra, de arrabalde, de puro e autêntico que já mais dificilmente encontro em Lisboa. Que procuro recuperar nos silêncios belos e eloquentes que este livro e esta escrita criam dentro de mim.

Porque é isso que ele consegue fazer: conduzir-nos ao silêncio, atravessando o feio ruído da cidade, pois «quem for Poeta, reconhece Flora numa flor, que ela está em todas as flores, como em todas as caras alegres, a alegria». Rematando: «Se a Árvore não existisse mais do que as árvores, existiria alguma árvore?»

Muito mais poderia escrever acerca deste livro. Talvez ainda o faça, ou então talvez me mantenha no silêncio do Marão, que uma vez conhecido, em qualquer lugar pode ser encontrado.


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