DIAS DE DEUSAS EM VIAGEM - Maria do Carmo Vieira, Adeus a uma mais que amiga, a uma superior irmã!

Quarta-crescente 547, Risoleta C. Pinto Pedro

No período de maior intensidade do trabalho da biografia em que, de há dez anos a esta parte, me venho envolvendo como co-biógrafa da vida e da obra do filósofo António Telmo, altura mais intensa por nos estarmos a aproximar das décadas finais e da conclusão do nosso trabalho, com o cansaço e a ansiedade inerentes, procuro pôr cronologicamente em ordem uns documentos do espólio, relativos aos anos noventa, onde se encontram inúmeras cartas com convites para participação em encontros, colóquios, conferências… Uma dessas cartas vem assinada por alguém que foi uma muito querida amiga e que conheci por volta da data em que esta é assinada: 1994.

É endereçada a Telmo em nome da Sociedade da Língua Portuguesa e assina-a Elsa Rodrigues dos Santos, ao tempo sua vice-presidente, que procura concretizar um projecto do ex-presidente da Sociedade, Fernando Sylvan, que entretanto falecera: uma sabatina de homenagem a António Quadros, para a qual convida António Telmo.

Devo ter conhecido a Elsa justamente nesse ano, quando fui dar aulas para a Escola Secundária dos Anjos, onde ela era presidente da direcção. Começámos com uma discussão na sala de professores, porque ela não compreendeu imediatamente os meus métodos pedagógicos um pouco fora da caixa, e tornámo-nos para sempre amigas. A casa de uma passou a ser a casa da outra, a família de uma, a família da outra. Esta mulher extraordinária, apaixonada, generosa, corajosa e intensa, ensaísta e profunda conhecedora e promotora da literatura africana, amiga de muitos escritores de língua portuguesa desse continente, como de escritores de cá, e comungando, ambas, de amigos em comum, partiu há uns anos, prematuramente, de doença súbita, para minha grande tristeza e profundo choque, saudade inconsolável e sentimento de desconsolo pela insubstituível presença.

Quando, ontem, me cai ao colo a sua carta, uma carta oficial para António Telmo, esse outro insubstituível, eu tinha sido, no dia anterior, mais uma vez abalada por uma perda. Esta de agora, com a mensagem que recebera de uma das filhas de Maria do Carmo Vieira, outra defensora intensa da Língua, e amiga com laivos de irmã, desde que nos encontrámos pela primeira vez, no estágio que ambas

frequentámos na Escola Secundária Maria Amália Vaz de Carvalho. Sabia-a doente, mas não imaginava tão prematura partida. Ainda há poucos dias trocáramos mensagens de parabéns, pois somos ambas nascidas no mesmo mês.

Na Feira do Livro do ano passado estive na Feira do Livro a assistir ao lançamento do seu livro evocando o intenso e extraordinário trabalho feito com os seus alunos, em meados da década de oitenta, no âmbito da defesa do Pessoano café Martinho da Arcada como Património Cultural. Evento comovedor pela presença de alguns desses alunos, actualmente profissionais em várias áreas, mas profundamente transformados como pessoas por esta experiência a partir da qual nunca mais foram os mesmos.

https://www.publico.pt/2021/11/28/opiniao/opiniao/verdade-historia-cafe-martinho-arcada-1-1986704

Há não muito tempo escrevi sobre o seu livro “Memórias de um Felino”, que publicou em 2024, pela Minotauro, e que me enviou, por saber como me tocaria a sua leitura.

Oficialmente, morreu de doença, numa forma bastante invasiva, mas eu tenho outra opinião.

Morreu de excesso de vida. Electrocutada por si mesma. Excesso de carga. Desde que a conheço, que sempre a vi a vibrar 300% acima da capacidade humana, fosse a investigar, a dar aulas, a envolver-se em causas culturais com seus alunos, a lutar contra o acordo ortográfico, a criticar o Ministério da Educação (os vários)e suas desastradas reformas contra a literatura e a língua, a lutar por causas animais, a defender Gaza, a ajudar todos à sua volta, pois o seu coração compassivo não se contentava com a compaixão passiva. Havia nela um imperativo de excesso e de realização que lhe gastou as reservas e lhe prolongou o sofrimento pela comunhão com os que são vítimas da injustiça e sofrem a dor terrena. Não se aguenta tanta dor, tanto desgaste. O seu frágil corpo, o seu coração condoído, não podiam suportar mais o que não conseguiam resolver. Talvez tivesse pensado que de mais alto poderia ver melhor as soluções. Eram altas as esferas éticas em que sempre viveu, mas necessitou de se elevar ainda mais, muito, muito acima do sobre-humano em que há tantos anos tentava equilibrar-se. Não fez as malas, para poder elevar-se melhor, e partiu.

Se o leitor encontrar, nos próximos tempos, alguma melhoria no mundo, já sabe: foi ela!

https://www.publico.pt/2026/08/04/culturaipsilon/noticia/morreu-professora-ensaista-maria-carmo-vieira-voz-critica-acordo-ortografico-2184049


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