Erva-carapau, por Miguel Boieiro

O meu estimado amigo Luís Freitas, incansável diretor da revista “Saúde Actual” que, em minha opinião e sem lisonja, é uma das melhores revistas que atualmente se publicam em Portugal, versando medicinas alternativas e não só, lançou-me o desafio para que nas habituais deambulações sobre os preceitos da fitoterapia aborde também a erva-carapau.

Ora, vale a pena acentuar que este escriba, não é especialista,  longe disso, só escreve por prazer e por assumida missão de despertar consciências para a mais-valia da flora e sua potencial influência na vida humana. O consumismo exacerbado que hoje nos rege, assenta primordialmente na obtenção do lucro, baseado nas regras de um capitalismo feroz. Subsiste numa floresta de enganos manipulada por sofisticados meios informativos e publicitários. Tal impele as criaturas de boa fé a cuidadosas reflexões. Urge, como nunca antes, desconfiar, estudar, pesquisar, recuperar e aferir conhecimentos antigos, trazendo à liça hipóteses de utilizações úteis, arredadas de famigeradas e apregoadas vantagens económicas.

A  análise sobre a erva-carapau pode caber nas cogitações acima expostas porque há quem a adore e quem a detesta, considerando-a erva daninha que deve ser simplesmente irradiada. Ora, nem sempre assim foi. Utilizada desde a antiguidade clássica, como medicamento, a planta caiu em desgraça, estando agora listada entre as 100 maiores espécies exóticas invasoras do mundo.

A erva-carapau, também conhecida por salgueirinha e salicária, com a designação científica  de Lythrum salicaria pertence à família botânica das Lythraceae. É uma herbácea vivaz nativa  das zonas húmidas da Europa  e do próximo oriente. Podemos considerá-la erva semi-aquática pois vegeta abundantemente nos terrenos encharcados das margens dos rios, riachos, valas, lagoas e pântanos. Possui caules eretos  quadrangulares e arroxeados que podem atingir 2 metros de altura. As folhas são opostas, sésseis, de formato estreito e oblongo, fazendo lembrar as folhas do salgueiro.

Floresce durante todo verão. As pequenas flores, de um vermelho púrpura atraente, aparecem reunidas em espigas terminais. São hermafroditas e polinizadas por abelhas e outros insetos de “língua comprida”. A frutificação dá-se em cápsulas oblongas contendo minúsculas sementes que não excedem 1 mm. Uma única planta pode produzir cerca de 3 milhões de sementes com grande poder germinativo, as quais  são facilmente disseminadas pela água e pelo vento.

As raízes formam tufos espessos entrelaçados que podem ir até 1 metro de profundidade, podendo gerar dezenas de caules eretos ramificados.

Só por esta descrição se pode facilmente aquilatar da razão por que nos Estados Unidos e noutros países onde a planta se naturalizou, a erva-carapau foi considerada espécie invasora. Com efeito, ela prejudica a diversidade botânica e principalmente o cultivo de outras espácies que dão lucro imediato.

Veremos, contudo, como esta planta reúne valiosas qualidades terapêuticas que outrora eram muito apreciadas antes do aparecimento da moderna farmacologia.

Comprovadamente ela detém propriedades anti-inflamatórias, antidiabéticas, anti-microbianas, antioxidantes, anti-diarreicas, adstringentes, cicatrizantes, hemostáticas, diuréticas, calmantes ...

Contém glicosídios, pectinas, resinas, taninos, mucilagens, carotenos, sais minerais (ferro), óleos essenciais, etc. Diz-se que na sua raiz foram identificados 48 compostos.

A medicina tradicional aponta aplicações para doenças gastrointestinais (diarreia, disenteria, colite), hemorroidal, eczema, dermatoses, gengivites, circulação sanguínea,  varizes, sangramento uterino e até febre tifoide.

O Dr. José Lyon de Castro, no seu livro “Medicina Vegetal”, aponta a seguinte receita:  infusão de 30 g das sumidades floridas num litro de água para beber três chávenas por dia, fora das refeições. Outros autores aludem também a usos tópicos como loções, compressas, lavagens e irrigações.

As folhas jovens e as flores são comestíveis cruas ou cozinhadas.

A planta tem abundante néctar e pólen e é muito adequada para a apicultura.

As flores proporcionam um corante vegetal para rebuçados e caramelos.

Devido a conter bastante tanino servia outrora para curtimenta de peles.

Por fim, a espécie é ornamental graças à persistência das suas flores vistosas e chamativas

Querem planta mais útil?

 

Agosto de 2026

 Miguel Boieiro

‍ ‍

Próximo
Próximo

A propósito do lançamento do Dicionário Insubmisso para o século XXI – por Boaventura de Sousa Santos