A propósito do lançamento do Dicionário Insubmisso para o século XXI – por Boaventura de Sousa Santos
Os lançamentos do meu livro mais recente – Lisboa, 26 de Junho na Fundação Saramago; Coimbra, 3 de Julho na Casa da Cultura; e Porto, dia 10 de Julho na livraria da cooperativa UNICEPE – foram a minha primeira intervenção pública em Portugal nos últimos três anos e meio. Fiz palestras na Colômbia em 2024 e, em Novembro de 2025, estive no Rio de Janeiro a convite do Presidente da Câmara Municipal de Niterói, Rodrigo Neves, e da Presidente Nacional do Instituto dos Advogados Brasileiros, Rita Cortez. Em Niterói, fiz uma palestra sobre os novos desafios às cidades e à vida urbana. No IAB, de que sou há anos Membro Benemérito, além de uma palestra à volta do então meu livro mais recente, Direito e Epistemologias do Sul: dos direitos dos excluídos aos direitos da natureza, fui homenageado com a medalha Luiz Gama. O simbolismo desta homenagem foi enorme. Por um lado, pelo nome do patrono desta medalha. Luiz Gama, nascido em Salvador, Bahia, em 1830, foi um advogado, abolicionista, orador, jornalista e escritor, patrono da Abolição da Escravidão do Brasil. Nascido de mãe “negra, africana livre” e pai “fidalgo”, foi um jovem livre até 9 anos de idade quando o próprio pai o vendeu como escravo, tendo permanecido analfabeto até aos 17 anos. Por outro lado, para sublinhar ainda mais o simbolismo da homenagem, a medalha que me foi concedida foi desenhada pelo grande Óscar Niemeyer.
Nos três lançamentos do Dicionário Insubmisso, tive o privilégio de contar com três magníficas apresentações. Em Lisboa, pela Pilar del Rio; em Coimbra, pelo António Pedro Pita; no Porto, pelo Jorge Castro Guedes. Espero que os textos que tiveram a generosidade de escrever sejam em breve publicados na Viagem dos Argonautas.
O lançamento no Porto teve uma característica especial: foi o único em que se realizou debate. No ambiente mágico da livraria da cooperativa UNICEPE, símbolo das lutas internacionalistas contra as ditaduras e pela libertação dos povos, dois temas principais emergiram no debate: a inteligência artificial e a questão da espiritualidade, ambos abordados no livro.
Sobre a inteligência artificial intervieram várias pessoas, entre as quais o Delfim Sousa. A IA é hoje um dos maiores desafios que enfrenta a humanidade. Tal como outras inovações tecnológicas do passado, impressiona pela eficácia do seu desempenho e assusta pelo facto de, tal como aconteceu com a internet e a energia nuclear, os grandes propulsores iniciais do seu desenvolvimento serem os fins militares, ou seja, a guerra. Mas, ao contrário das inovações tecnológicas anteriores, a IA é “inteligente” e “pensa”. Que o mesmo é dizer, a IA aprende com os seus próprios erros e corrige-os, reconhece as suas deficiências e supera-as. Há o perigo real de a IA passar facilmente de instrumento da acção humana a critério de acção humana. Quando isso acontecer, a humanidade estará refém de um conhecimento mecanístico, algoritmicamente gerado, incapaz de criar outro conhecimento que não o conhecimento estandardizado, desconhecedor tanto da ideia de alternativa criativa quanto de preocupações éticas.
A premência deste debate viria a ser sublinhada quando, no dia seguinte, assisti ao lançamento do livro 3×44, Caim e Abel em contrapé de António Carvalho, antigo presidente da junta de freguesia de Medas, Gondomar, no ambiente paradisíaco da Fundação Hermínia Vilar Ribeiro e a convite do seu presidente, o meu amigo António Vilar. Durante o lançamento do livro, cuja leitura recomendo vivamente, o sobrinho neto do António Carvalho, um jovem de 11 anos, estudante de violino, tocou algumas curtas peças. Impressionado, meti conversa com o jovem, querendo saber sobre os seus planos futuros como violinista. O jovem confessou-me que estava muito preocupado e a ponto de desistir, em virtude do impacto da IA na música e no trabalho dos músicos. A qualidade na execução de uma peça, que leva aos humanos milhares de horas de ensaio durante vários anos, é hoje obtida quase instantaneamente pela IA. Vi-me aflito para lhe mostrar que a arte, além de tudo o que tem, tem o nada de que emerge a verdadeira criatividade. A IA tem tudo, mas não tem o nada.
O outro tema de debate no lançamento na UNICEPE foi o tema da espiritualidade e foi suscitado com especial veemência e rigor por Adão Cruz.[i] Adão Cruz declarou-se materialista e argumentou que os avanços recentes dos estudos sobre o cérebro pelas neurociências tornam obsoleto o conceito de espiritualidade. Nada existe além do que é realizado pela actividade neuronal. O além do cérebro, chame-se alma ou espiritualidade, é pura ilusão resultante de conhecimento ainda incompleto sobre essa complexíssima parte do corpo. Foi um debate intenso e tanto mais intenso quanto se travava entre dois materialistas: o materialismo neurocientífico do Adão Cruz e o meu materialismo histórico, ditado pela minha formação marxista. Como é fácil de prever, tratava-se de um debate sem fim.
Para mais, sendo eu um espinosista, considero, tal como Adão Cruz, que a distinção corpo-alma foi a distinção mais deletéria introduzida na filosofia e no senso comum modernos. Só que a espiritualidade não é a alma, é antes a dimensão transcendental do tudo o que é imanente. É a finitude que tem consciência da infinitude, é a capacidade humana de ver num rio um curso de água e simultaneamente o considerar um ente sagrado, uma divindade. Esta multidimensionalidade do real é o modo humano de ser como ser incompleto, um ser que só existe como ser-com, com os outros, com a natureza, com o universo. É este o significado último da abertura ao mundo por parte de um ser que se reconhece como pertencendo a uma totalidade que o transcende.
Quando dizemos que conhecemos o cérebro, isso só é verdade na medida em que essa expressão tiver a consciência de que é uma ilusão de óptica, a ilusão de uma distinção entre sujeito e objecto, entre o sujeito que conhece e o objecto que é conhecido. De facto, é o cérebro a conhecer o cérebro. É uma forma de autoconhecimento e, como tal, só pode dar conta de si. Enquanto ser aberto a outros, ele nunca pode conhecer os outros como se conhece a si próprio e, no entanto, não existe sem eles. É nisso que consiste o ser-com. Portanto, a questão epistémica é, no fundo, uma questão ontológica. A diferença entre a totalidade ou não do que conhecemos ou podemos conhecer assenta, em última instância, na diferença entre sermos ou sermos-com. O espiritual é o modo de ser como ser-com. As neurociências nunca nos darão a claridade total (que, aliás, nos cegaria), nem antes delas vivíamos na total escuridão (que não veríamos). Teremos sempre de viver com as sombras como dizia Giordano Bruno, também estudado no livro. Viver com as sombras é contrário de viver na sombra.
Devido a este debate e a tudo o que vivi na UNICEPE numa tarde de Julho fez com que saísse daquele espaço mais vivo do que quando entrei. Senti-me enriquecido enquanto ser ao ter o privilégio de me tornar o associado número 211118145 da cooperativa livreira de estudantes do Porto, UNICEPE, proposto por dois cooperativistas, o Rui Vaz Pinto, presidente da direcção da cooperativa, meu novo amigo, e o Jorge Castro Guedes, meu velho amigo. Ao longo da minha vida tenho tido a sensação de chegar cedo demais à história, o que me tem feito correr muitos riscos. Desta vez, senti que cheguei tarde demais. Mas mais vale tarde que nunca.
NOTA
[i] O seu texto pode ser lido em https://aviagemdosargonautas.net/2026/07/11/ontem-na-unicepe-por-adao-cruz/