Ontem, na UNICEPE. por Adão Cruz
Pintura de Adão Cruz
Ontem, na UNICEPE, grande bastião da resistência cultural e política do nosso país e não só, foi apresentado o livro do Prof. Boaventura de Sousa Santos “DICIONÁRIO INSUBMISSO PARA O SÉCULO XXI – TRINTA EXERCÍCIOS SÓCIO-ESPIRITUAIS”. Não conhecia pessoalmente o prof. Boaventura, mas tenho lido os seus textos no blogue “A VIAGEM DOS ARGONAUTAS”, onde somos colaboradores. Confirmei, ao ouvi-lo, que se trata de um sábio, homem de grande cultura, um sociólogo de renome internacional, grande investigador, pensador e escritor. Reconheci-me nas suas ideias, sobretudo no que se refere à consciência da renovação do fascismo, à degenerescência e anulação da cultura social, à crueldade que avassala o mundo, ao desprezo pela vida humana, às guerras, aos nefastos efeitos da IA, ao aparecimento cada vez maior de monstros inqualificáveis e tantas outras convicções de uma mente brilhante, o que me levou a dizer que, apesar de haver tantas honrosas excepções, o animal homem deve ter sido a pior coisa que apareceu no planeta.
Tudo isto não invalida que possa haver algumas divergências conceptuais, sobretudo entre sábios como o Prof. Boaventura e humildes aprendizes da vida, como eu. Por isso, intervim, colocando-lhe a questão do espírito. Para mim, materialista convicto, não consigo entender como se pode falar em espírito ou espiritualismo, ou mesmo alma. Nós temos, fechado dentro da nossa cabeça, um órgão que pesa à volta de quilo e meio, com uma evolução de quinhentos milhões de anos. É a estrutura mais complexa e difícil de entender do planeta e mesmo do Universo conhecido. Contém oitenta e seis mil milhões de células chamadas neurónios. Se nos fosse possível contar um a um, um por segundo, sem parar nem dormir, levaríamos dois mil e setecentos anos a contá-los. Além disso, cada neurónio tem em média cinco mil conexões com outros neurónios, o que nos permite dizer que no nosso cérebro há mais conexões ou ligações do que estrelas na Via Láctea. Toda esta prodigiosa máquina é percorrida em cada instante por triliões de neuro-transmissões electro-bio-químicas que conduzem à construção do inimaginável mundo da nossa mente, arranjo de todo o conhecimento adquirido, acumulado, arquivado e rigorosamente tratado, complexíssimo laboratório onde toda a nossa vida intelectual e toda a nossa vida dita “psíquica” se processa. A “Biologia do Espírito” de Jean Pierre Changeux. Com efeito, não precisamos do espírito para nada. Com a agravante de que, ao procurarmos inventar o espírito, podermos estar a sobrenaturalizar tudo aquilo que é puramente material e natural. O Prof. Boaventura tentou dar-me a sua interpretação, achando que não podemos confundir quantidade com qualidade, entre outros argumentos, mas, sinceramente, não me convenceu. Disse ainda que o nosso cérebro é incognoscível, afirmação que eu refuto de forma bem firme. Embora saibamos ainda muito pouco da complexidade cerebral, não só do nosso cérebro, mas dos cérebros em geral (o cérebro de uma formiga é muito mais difícil de entender do que a estrutura de uma estrela), aquilo que hoje conhecemos não tem qualquer comparação possível com o que conhecíamos há trinta anos ou há sessenta anos, quando eu era estudante de medicina.
No fim da apresentação, a esposa do Prof. Boaventura, Senhora extremamente afável e simpática, abordou-me, dizendo que estava de acordo comigo. Conversámos bastante sobre o assunto, sobre Evolução e outras coisas. Quando me dirigi ao Prof. Boaventura para lhe pedir um autógrafo, disse-lhe que sua esposa estava de acordo comigo, ao que ele respondeu: Ela é muito mais materialista do que eu.
Foi uma tarde quase em cheio. E acabou por ser mesmo em cheio quando encontrei um amigo e colega do meu tempo no Hospital de Santo António, o prestigiado neurologista e intelectual da medicina Dr. Rosalvo Almeida, que me ofereceu um seu livro intitulado “FINITUDE, FINALIDADE-REFLEXÔES SOBRE MORTE, POLÍTICAS PÚBLICAS E OPÇÕES PRIVADAS”, (Dissertação de Mestrado em Saúde Pública). Não descansei enquanto não comecei a sua leitura hoje de manhã. Estou a adorar e tenho pena que seja uma edição de autor, de distribuição gratuita, pois merecia, sem dúvida alguma, uma divulgação nacional.