A ARTE DE VER - Ana Garcia, uma arquitecta da sincroni-CIDADE

Quarta-crescente 545, Risoleta C. Pinto Pedro

Gosto de andar pelas cidades com visão de laser, pelo menos aquela que está ao meu alcance. É assim que percorro a cidade que habito, mas é também assim que percorro as cidades que visito, deste modo as transformando, para mim, em cidades habitadas. Só isso me permitiu aperceber-me de sincronicidades, como ter encontrado, no Porto, pouco depois de uma dramática efeméride familiar relacionada com a data, uma loja bengali cujo nome é “21 de Fevereiro”. Isso conduziu-me a uma pesquisa sobre o dia assinalado como denominação no frontispício da loja. Já aqui desenvolvi este assunto, há não muito tempo. E talvez não seja por acaso, embora pareça especulação, e talvez o seja, que a palavra sincronicidade contenha em si o termo “cidade”.

Em 1942, Aldous Huxley, tendo sofrido de problemas graves de visão, publicou “A arte de Ver”, um manual que escrevera para a reeducação do olhar, cujas orientações seguira, ele próprio, com sucesso. Apresenta, ao mesmo tempo, uma perspectiva de visão espiritual e profunda. Uma atenção ao mundo, ao pormenor, ao intervalo, ao aparente vazio, ao não visto, ao transparente, ao “desnecessário”, ao “não importante”. Uma visão demorada, que se detém sobre o pormenor e que percorre linhas esquecidas e quase apagadas. Um olhar contra a miopia, o astigmatismo e outros problemas dos olhos. Sendo que alguns, se não todos, têm origem na mente.

Conheci este livro há bastantes anos, quando a minha mãe experimentou um trabalho de reaprendizagem para recuperação da inteira visão. Foi uma bela surpresa quando, mais tarde, contactando com a obra de António Telmo, percebi ser este um dos seus autores e este um dos seus livros. Telmo tem, aliás, vários textos sobre a visão, o olhar, a atenção e a liberdade.

Quando fui viver para a zona Graça-Sapadores, numa travessa em que se entra pela Rua do Vale de Santo António e de que se sai entrando nesta mesma rua, como em caracol, ou em espiral, andava (e ainda ando) de olhos deslumbrados para tudo, minúcias quase ignoradas, a começar pelas frágeis e anónimas ervinhas e modestas e minúsculas flores, pormenores de azulejos, originais grafitis, janelas e portas que me faziam viajar no tempo e na estética. Tudo fotografava e tudo me era tema de escrita. Agora fotografo menos e escrevo ainda mais. Fotografo com letras. Há pouco tempo vim a saber da existência, na Rua Vale de Santo António, de um atelier chamado “Atelier da Graça”, que tem como um dos propósitos proporcionar esta experiência de olhar para a humildade grandiosa da cidade, dar a ver o invisível, tratar a cegueira quotidiana, conceder familiaridade ao que é grande e parece distante, nobreza ao que é velho e pequeno e sem valor. O “Atelier da Graça” faz isto com os vizinhos, a comunidade, os que vivem ou trabalham aqui, ou cá vêm propositadamente para disfrutar deste diferente olhar atento e inocente, sem julgar, mas avaliando com valores ao contrário do habitual. Foi, por exemplo, este tipo de experiência, que proporcionou a ligação do Atelier à organização da “Subida da Rampa do Vale”, uma prova de ciclismo em parceria, do “Mirantense Futebol Clube” e da “Associação Desportiva o Relâmpago” (organizadores em dupla), ao fundo da rua. As imagens captadas pelos intervenientes no circuito do olhar, depois transformadas em trabalho artístico no Atelier, serviram de motivos para um lençol desenhado "ao vivo" pelas mãos dos participantes, com as letras META pregadas por cima, a fim de assinalar o termo da corrida. Muito resumidamente, apenas uma forma algo superficial de eu tentar descrever um dos modos em que este Atelier da Graça, e Ana Garcia, sua Diretora pedagógica, Mestre em Educação Artística, artista visual e arquitecta com formação em urbanismo, se liga à comunidade e ao olhar.

No extremo oposto da rua, lá em baixo, já na proximidade dos armazéns de Santa Apolónia e perto do Clube Mirantense, uma outra associação, a Acapo, com que o Atelier tem colaborado. Uma associação de invisuais que provavelmente “vêem” melhor do que muitos de nós sem aparentes problemas de visão, e no lado superior, próximo de Sapadores, um atelier de artes visuais que procura estimular ao aprimoramento do olhar. Um paradoxo difícil de imaginar. E, contudo, possível e real. 'Olhar com olhos de sentir' é uma expressão que Ana Garcia usa e pratica com convicção.

Que relação pretendo estabelecer entre o livro de Huxley, o trabalho proposto e proporcionado pelo Atelier de Ana Garcia e a ACAPO?

Um pequeno dispositivo por ela concebido, que consiste num cartão com uma ranhura retangular, que usa para propor novos olhares sobre o real. Não é ver Braga por um canudo, é ver a cidade por um quase quadrado. O visor tanto capta o pequeno como o grande. Mas capta essencialmente o que escolhemos. E escolher (especialmente nos dias que correm) é, no seu entender, uma prática muito necessária, apesar da aparente contradição ou, talvez, por causa dela.

Também em “A Arte de Ver”, Huxley descreve e propõe algo de semelhante para uso de quem queira trabalhar no sentido de recuperar ou melhorar a visão: uma pequena tarjeta com orifício retangular, que o leitor vai deslocando letra a letra como forma de reaprender a olhar a escrita e recuperar a capacidade de ver, que ele designa como uma arte. Sem querer abarcar tudo. Ana Garcia, imagino, não poderia estar mais de acordo. Assim, com este olhar particular e peculiar, também se reaprende a ler o alfabeto da cidade, para nos libertarmos dessa espécie de cegueira que consiste em querer ver tudo sem nada olhar. Com Huxley, o leitor é convidado a reabilitar a caligrafia, a seguir-lhe os contornos, ponto por ponto, como quem, sinestesicamente, acaricia com os olhos a pele de cada letra. Ana Garcia ajuda a descer o olhar até ao pequeno, ao impuro, ao invisível. Assim o elevando. Porque, como disse António Telmo, o filósofo sobre cuja infância um menino frequentador do atelier da Ana Garcia ilustrou um livro, não se pode ser “excessivamente puro”.

Outra boa notícia é que a Universidade começa a estar aberta a diferentes olhares e a reconhecer o seu valor, quando existe. Daí que Ana Garcia, com o seu trabalho a partir do Atelier da Graça, tenha sido recentemente reconhecida, pela Faculdade de Belas Artes, como Mestre, com a classificação máxima. Parabéns! A ela, ao Atelier, à rua Vale de Santo António, à cidade, a todos nós!

Uma última nota: para além destas experiências com a comunidade, decorrem, no Atelier da Graça, oficinas artísticas, e é dada oportunidade a outros artistas para mostrarem os seus trabalhos (quer sejam escritos, pintados, desenhados, musicais ou dançados). É um espaço de criação, acolhimento e partilha, à semelhança, ou demonstrando como deveriam ser as cidades, ou de como terão de se tornar as cidades, para sua própria sobrevivência, beleza e saúde. Que talvez sejam sinónimos. Ou, talvez, “sincrónimos”, se nos é permitido o neologismo.


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