Alocução ao Jantar “Conquistas da Revolução”

do nosso associado José Adelino Mota e CASTRO CARNEIRO, coronel, "capitão de Abril", no jantar organizado pela Associação Conquistas da Revolução em 24 de abril de 2026

O ano passado em 25 de Novembro apresentei na UNICEPE o meu 'Não Livro' que intitulei 'ENCONTRO COM A minha HISTÓRIA' que escrevi para a Fátima, a 'minha mulher de Abril e de sempre — fizemos há 12 dias 57 anos de casados, o que não deixa de ser um 'sempre' já bem comprido — para os meus filhos e netos, que aqui estão comigo, para que não esqueçam e para todos os amigos aqui presentes para que olhem para mim ... inteiro.

 

Naquela apresentação senti-me na obrigação de prestar, às pessoas que lá se encontravam, um esclarecimento sobre a minha indumentária. Afirmei ter estado bastante indeciso entre me apresentar com uma camisa clara e uma gravata preta, acabando por optar por uma camisa preta e uma gravata clara. Como a camisa sempre tinha mais pano, pensei transmitir-lhes a ideia de que o meu luto naquele dia 25 de Novembro era o mais carregado que conseguia arranjar. Eu, pranteava nesse dia o funeral do meu e vosso 25 de Abril.

 

Também hoje me sinto na obrigação de vos falar da minha indumentária, não sei se isto está a virar vício, e dizer-vos ser este o meu uniforme nº 1 civil, no qual ostento ufanamente a insígnia de Grande Oficial da Ordem da Liberdade que o 'meu povo' me atribuiu e da qual penso ser inteiramente merecedor.

Não posso deixar de pensar também que quem ma pôs ao peito, a arrastou com toda a indignidade pela lama que ela não merecia quando, sem qualquer sentido ou decência mínima, a quis também atribuir a um escroque assassino do seu povo o palhaço Volodymyr Zelensky. Porque me é custoso, dispenso-me de referir o seu nome. Como sabiamente dizia o Marechal Costa Gomes quero deixar essas coisas com quem elas ficam!

 

Mas mudando, não de traje, mas de assunto, queria falar-vos da maior e mais completa insubordinação de que fui vítima em toda a minha vida, quando passadas 2 ou 3 reuniões da Associação Conquistas da Revolução todos eles me disseram que o meu 'Não Livro' tinha mesmo que ser um 'Livro' que trataram de imprimir e de me porem a apresentá-lo por esse país fora. Claro que houve alguns que levaram a indisciplina a graus que eu nem imaginava, quando o apresentaram comigo, ou às suas apresentações assistiram. Foi assim que de 'Não Livro' passou a ser carinhosamente o "Nosso Livro".

 

Porque de um jantar de amigos que juntos celebram o 25 de Abril se trata, permiti que um capitão de Abril vos recorde do que para ele foram esses tempos.

 

Fui promovido a capitão em 1970 e comecei logo a formar a minha companhia para ir combater em Angola, onde estive de 1971 a 1973. A minha companhia foi colocada no Norte de Angola, junto à fronteira da República Democrática do Congo, num local chamado M'Pozo onde passamos os 2 anos da comissão. Tornar-se-ia fastidioso estar-vos aqui a contar o que foram aqueles dois anos, mas acho que vale a pena falar de alguns aspectos desconhecidos da generalidade do povo português mas que reputo de muito relevantes.

Eu sei que a nossa guerra foi aquilo a que chamamos uma 'guerra de baixa intensidade' mas nestes 2 anos eu e os meus duzentos homens vivemos 24 horas por dia o dilema do 'matar para não ser morto', já que tudo aquilo que mexia fora do arame farpado que limitava o quartel a gente tentava matar se era bicho a gente matava para comer, se era homem a gente matava para não ser morto. Acho que só quem o viveu pode perceber exactamente do que falo.

 

Mas mais importante do que o que sentimos e sofremos, foi o quanto custaram em sangue ao povo português, os 13 anos de guerra que o governo fascista não aproveitou para negociar a paz e a independência inevitável das colónias. Como na índia, o fascismo queria impor aos militares o dilema 'mortos ou vitoriosos'. No quartel do Carmo, aquilo que o Salgueiro Maia do meu curso disse a Marcelo Caetano quando o prendeu foi: 'Não queremos mais Índias'. A minha geração cumpriu o seu dever até concluir que não aceitava mais a ordem de sacrificar a sua Nação.

 

Os últimos números que conheço, do Tenente-Coronel Pedro Marquês de Sousa, apontam para um quadro bem negro. Afirma ele que os mortos militares foram 10.425 e acrescenta que no total, incluindo as baixas dos movimentos independentistas e entre a população civil, a guerra em Africa fez quase 45 mil mortos e 53 mil feridos.

Tenho também aqui mais um número "engraçado", que de engraçado nada tem; se quisermos estabelecer uma comparação com a Guerra do Vietnam —e isto é proporcional à população portuguesa e americana — nós empenhamos nove vezes mais efectivos que os americanos e tivemos 5 vezes mais baixas do que as que eles registaram no Vietnam. Quando vemos nos filmes americanos o horror que foi o Vietnam a verdade é que nós passamos por todos esses horrores e pagamos um preço 5 vezes superior ao deles. O nosso 'filme' só foi 'corrido em velocidade mais reduzida'. Demorou 13 anos e não 8.

 

Infelizmente ainda temos entre nós idiotas que nos dias de hoje se atrevem a dizer que a nossa guerra colonial estava ganha e que a descolonização foi uma entrega por qualquer preço aos movimentos de Libertação. A todos esses “loucos do Império” quero dizer alto e bom som que conheço perfeitamente o nome que lhes deve ser chamado e que só não o digo aqui porque sou bem educado e porque nesta sala se encontram senhoras que muito respeito, incluindo a minha mulher, as minhas filhas e as minhas netas.

 

Por manifesta falta de tempo, não vos quero falar da minha conspiração do 25 de Abril; dizer-vos apenas que começou em Luanda, no dia 01 de Setembro de 1973, onde assinei   uma petição colectiva ao Senhor Presidente do Conselho de Ministros que sabia não poder fazer. Se na altura ainda se cumprissem os Regulamentos Militares eu e todos os que assinamos deveríamos ir parar à prisão.

 

Também não vos quero falar da minha participação do 25 de Abril aqui no Porto ou na Contra-Revolução iniciada em 25 de Abril de 1974 pelo General Spínola e a sua corte, mas tenho mesmo que vos falar do ‘25 de Novembro’ e do que sucedeu ‘Depois do 25 de Novembro’.

 

Passado meio século, a população portuguesa está ainda muito longe de saber, com verdade, o que foi o 25 de Novembro de 1975 e, pior ainda, não tem a menor ideia do que, de imediato, se seguiu a essa data.

A história que, pela generalidade dos media, tem sido repetida até à exaustão não passa de uma tradicional e malévola versão da fábula de carochinha, e a nossa memória colectiva, naturalmente, não reteve o que verdadeiramente aconteceu, o como, o porquê e quem, em Novembro de 75:

– deu o golpe há muito tempo preparado ao pormenor,

– que militares conspiraram com que partidos políticos,

– quem, porquê e para quê, distribuiu armas a partidos e a civis,

– quem teve a conivência e o apoio da Igreja Católica, da direita e extrema-direita portuguesas e de serviços secretos estrangeiros,

– e até quem e porquê, na área militar mas também na sociedade civil, foram os crismados de moderados e os apelidados de extremistas, para utilizar a linguagem dos chamados vencedores reproduzida e aumentada, ad nauseam, pela generalidade dos media. Ainda nos dias de hoje…

 

Para que tudo se perceba com um pouco mais de realismo e verdade, é também indispensável ter uma ideia sobre o papel, preponderante, de vários serviços secretos de países ‘amigos’, nomeadamente o norte-americano que, com o embaixador Carluci à frente, mexeu com sucesso todos os cordelinhos reais e imaginários. Em ligação directa com Mário Soares – mas também com Melo Antunes.

 

Hoje, todo o bicho careta, na Assembleia da República, no Governo, nos média, classifica como lhe dá na gana e com a naturalidade que lhe convém este ou aquele militar, sem a mínima preocupação de respeitar a verdade e/ou sem se basear em qualquer facto real. Desde que descobrimos os ‘Danos Colaterais’ e as ‘Fake News’ tem sido um ‘fartar vilanagem’ em que tudo obedece ao princípio de que “os fins justificam sempre os meios” por mais escabrosos que eles sejam e senão vejamos:

 

– Será aceitável que pessoas adultas admitam sequer, que em 16 de Outubro de 1973, o Comité Norueguês do Nobel conceda o Prémio Nobel da Paz a Henry Kissinger, ele que foi um dos principais formuladores da política externa norte-americana desde o governo de Richard Nixon e deixou um legado de destruição, atrocidades e crimes de guerra em todo o planeta, incluindo Portugal? Será que ninguém sabe?

São estas as malhas que o Império tece!

 

– Será aceitável que pessoas adultas admitam sequer, que a morte de meio milhão de crianças iraquianas devido às sanções impostas pelos EUA e ONU "valeu a pena" para atingir os objetivos políticos de contenção de Saddam Hussein, conforme afirmou Madeleine Albright, ex-secretária de Estado dos EUA, em entrevista televisiva? Será que ninguém sabe?

São estas as malhas que o Império tece!

 

– Será aceitável que pessoas adultas admitam sequer, que o Chile de Pinochet que durou 17 anos estendendo-se de 11 de Setembro de 1973 a 11 de Março de 1990, marcado por intensa repressão política, violações dos direitos humanos, profundas reformas neoliberais, com milhares de mortos, desaparecidos e torturados se destinava a defender a democracia, a liberdade e os tais valores ocidentais que ainda hoje se apregoam? Será que ninguém sabe? São estas as malhas que o Império tece!

 

– Será aceitável que pessoas adultas desconheçam que muitos ‘candidatos a Pinochets’ existiram e continuam a existir em Portugal, mataram portugueses e espalharam bombas por Portugal inteiro. Será que ninguém sabe?

São estas as malhas que o Império tece!

– Será aceitável que pessoas adultas admitam sequer que é legítima a ‘palhaçada’ da atribuição do Prémio Nobel da Paz a Maria Corina Machado, que defende a invasão do seu país e agradece a Trump ter sequestrado com um Golpe Militar o presidente eleito do seu país? Será que ninguém sabe?

São estas as malhas que o Império tece!

 

– Será aceitável que pessoas adultas admitam sequer, que o 28 de Setembro de 1974 foi um golpe do Palma Carlos como vulgarmente é designado e não do Sá Carneiro. Na reunião a que assisti no cinema da Manutenção Militar quem falou desde o início foi Sá Carneiro e não Palma Carlos. Também foi Sá Carneiro quem acompanhou Spínola quando este foi receber as instruções do Nixon para a Descolonização de Angola à Base das Lajes e também foi Sá Carneiro que se solidarizou com Palma Carlos quando este pediu a demissão. Por isso lhe chamamos no ‘Nosso Livro’ o Golpe Spínola–Sá Carneiro. Será que ninguém sabe?

São estas as malhas que o Império tece!

 

– Será aceitável que pessoas adultas acreditem sequer, que Frank Carlucci veio para Portugal defender-nos do Comunismo, sendo que o princípio orientador da política de Kissinger era o de que “quando estão em jogo “questões que são importantes demais para que os eleitores sejam deixados a decidir por si próprios (…), não vejo por que temos de ficar parados a ver um país tornar-se comunista devido à irresponsabilidade do seu povo.” Será que ninguém sabe?

São estas as malhas que o Império tece!

 

– Será aceitável que pessoas adultas não acreditem sequer, que Sousa e Castro no seu livro “Capitão de Abril, Capitão de Novembro” refira que a Comissão Internacional de Juristas, compare a justiça Militar em Portugal com a que vigorava no Chile de Pinochet? Será que ninguém sabe?

São estas as malhas que o Império tece!

 

– Será aceitável que pessoas adultas não acreditem sequer, que Carlucci em entrevista a Teresa de Sousa tenha reconhecido que estudou alguns militares e que viu em Ramalho Eanes ‘um futuro lider’ razão que o levou a pedir ao seu amigo, General Alexander Haig – comandante das Forças da NATO – que o convidasse para um curso na sede da NATO. Posteriormente Carlucci comunica oficialmente a Washington a sua convicção de que tal curso tinha tido um impacto decisivo em Eanes. Como Loureiro dos Santos e Tomé Pinto eram oficiais do Corpo de Estado Maior tinham certamente todos os cursos da NATO necessários ao desempenho das suas funções. Faltava portanto para completar o ramalhete o Oficial de Infantaria que comandasse a operação. Os militares sabem que os oficiais de Estado Maior, pensam e planeiam as operações. Os ‘oficiais de botas’ executam as operações planeadas. Só não foi assim no 25 de Abril em que os ‘capitães de botas’ pensaram, planearam e executaram as operações o que levou ao desespero Kissinger e de todo o Ocidente. Afinal alguém escapou às malhas que o Império tece!

 

Tudo aquilo que se lhe seguiu no campo militar, sempre com ligações e contornos político partidários, aconteceu de imediato depois do 25 de Novembro:

– As numerosas prisões arbitrárias e incontáveis perseguições a militares sérios e honrados que fizeram e estiveram empenhadamente com o 25 de Abril;

– As arbitrariedades sem conta nas promoções;

– Todos as promoções a Generais dos Tenentes-coronéis que pela voz do Tenente-coronel que se promoveu a General, Aurélio Trindade descreve o espírito que os animava, quando na manhã de 25 de Novembro, Costa Gomes foi por eles interpelado, no Palácio de Belém primeiro objectivo do Grupo Militar sedeado na Amadora e cito:

“As ordens eram simples: o Presidente da República ou estava connosco ou teria que ser neutralizado, pois era impensável deixá-lo do lado dos insurrectos.

[NP: Todos aqueles que tendo feito o 25 de Abril não aceitaram fazer o 25 de Novembro].

 

Para bem dele e nosso, ele compreendeu de que lado estava a força”.

 

Em dias como os de hoje recordo sempre o Miguel Torga. Afirmava ele:

“É um fenómeno curioso:

O país ergue-se indignado, moureja o dia inteiro indignado, come, bebe e diverte-se indignado, mas não passa disto.

Falta-lhe o romantismo cívico da agressão.

Somos, socialmente, uma colectividade pacífica de revoltados”.

E ainda: “É escusado. Não posso ter outro partido senão o da liberdade.”

E quando o recordo, dou sempre um abraço ao meu camarada e amigo Matos Gomes – já falecido – por me ter dito: “Querem fazer de nós uma massa acrítica e manipulável, sujeita ao consenso institucional a quem é concedido o direito de votar sem colocar em causa a origem dos males.”

 

Penso que a origem dos males é andarmos há meio século a aceitar as histórias da Carochinha que como pessoas adultas deveríamos ter percebido e combatido e não aceitado.

 

 

Poema da Fátima “Mulheres de Abril” lido pela minha neta Marta João.

 

MULHERES DE ABRIL

 

Chegou por fim aquela madrugada

que eu tanto desejava e nem sabia.

Ainda me sinto a ela abraçada

e, ainda sinto bem o que então sentia.

 

A noite foi longa e eu não dormi.

Ele saiu bem cedo sem hesitar.

Naquela despedida especial eu vi,

emoções entrelaçadas no olhar.

 

Continuava ali, naquela madrugada.

Com meu olhar, os meus filhos abracei.

A minha alma estava tão amargurada

e, no momento uma oração rezei.

 

Ouvi a primeira e a segunda canção,

diretivas emitidas desse jeito.

As duas senhas da Revolução

e, o meu coração saltou no meu peito.

 

O sol já vai alto e começo a ouvir,

as notícias do que se vai passando.

Da minha janela vejo gente a sorrir

e, a dor do meu coração vai serenando.

Mas não sei nada do meu capitão.

Penso nas mulheres que estão como eu.

E o sofrimento no seu coração,

é grande e profundo como o meu.

 

Mulheres que tinham o mesmo ideal.

De ter um país livre, um país novo.

De ver sorrisos no rosto de Portugal.

De ver a Liberdade nas mãos do povo.

 

Fomos mulheres com armas na mão,

armas que tínhamos dentro de nós.

Com muito amor e dedicação,

juntamos aos capitães a nossa voz.

 

Sentiu-se no ar a força e a coragem,

naquele dia de cor Primaveril.

Sentiu-se no meio dessa fresca aragem,

o coração das Mulheres de Abril.

 

Só muito mais tarde o pude abraçar.

Abraço com sabor a Liberdade.

Tinha a esperança a brilhar no olhar,

tinha no olhar o brilho da Verdade.

 

 

Fátima Carneiro

Abril 2018.

 

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