Lorca

Texto de Roberto Merino, publicado originalmente em sinalaberto.pt/

Não é fácil pôr um ponto final nesta crónica, depois de duas sobre o autor granadino, sabendo que o ano ainda não findou e que as comemorações dos 90 anos do seu assassinato e do início da Guerra Civil continuarão, aqui, em Espanha e a nível mundial.

Depois de Lope de Vega, de Calderón de la Barca e de Miguel de Cervantes (também dramaturgo), Federico Garcia Lorca é o autor espanhol contemporâneo mais vital, herdeiro de uma tradição teatral espanhola excepcional. O seu olhar poético/crítico sobre a sociedade espanhola levou-o a escrever uma das trilogias mais importantes sobre o país vizinho: “Bodas de Sangre” (uma espécie de teatro documental), “Yerma” e a célebre e multi-representada “A Casa de Bernarda Alba”. Todas elas são o retrato de uma Espanha amordaçada, sangrenta, fechada, fratricida, estéril e vingativa… Textos que pareciam anunciar a Guerra Civil (1936-1939) e o sombrio período seguinte da ditadura franquista.

Tomando como base o manuscrito que Lorca estava a escrever pouco antes de ser assassinado, em 1936, dois realizadores espanhóis deram vida ao filme “La Bola Negra”. Desta peça de teatro conservam-se apenas quatro páginas, nas quais aparece uma longa lista de personagens. Carlos, o protagonista, quer entrar no casino de Granada, mas, para isso, tem de ser aceite pelos outros membros e submeter-se a uma votação anónima através de bolas brancas (sim) e negras (não). Carlos recebe “a bola negra” e, quando o pai lhe pergunta o motivo, Carlos responde: “Porque sou homossexual”. Este é o ponto de partida para o cruzamento cinematográfico de três histórias, em três época diferentes, e é o grande sucesso cinematográfico do ano, do cinema espanhol.

Destacamos na cidade do Porto: “Homenagem a Federico García Lorca, no 90.º aniversário do seu assassinato e do início da guerra civil espanhola”, a 4 de Novembro de 2026 (quarta-feira), das 18h00 às 19h00. A UNICEPE (Cooperativa Livreira de Estudantes do Porto, CRL) presta homenagem a um dos maiores poetas e dramaturgos ibéricos do século XX, num encontro de memória, palavra e música. Com a participação de gente do teatro da cidade e leitura de poemas pela actriz Emília Silvestre. O apontamento musical contará com a pianista Gabriela Barbosa e com a cantora Helena Correia, que irão interpretar quatro canções do universo musical de Lorca: “Anda Jaleo”, “El Café de Chinitas”, “Nana de Sevilla” e “Sevillana del Siglo XVIII”.

A propósito de Lorca, partilho com os leitores um momento de memória do meu amigo José (Zé) Mário Brandão (ligado à direcção do Círculo de Cultura Teatral –TEP), que foi um dos importantes galeristas da cidade do Porto, particularmente na desaparecida Galeria Nasoni.

Recordando o livro “Lorca y el mundo gay”, da autoria do hispanista Ian Gibson – um ensaio biográfico que examina a homossexualidade de Federico García Lorca e a sua relevância para a compreensão da sua obra e vida afectiva –, reproduzo: “Antes da estreia da ‘Yerma’, foi necessário alguém ir a Vigo para se encontrar com o escritor galego Eduardo Blanco-Amor (1897-1979), que viveu grande parte da sua vida na América do Sul, e trazer um texto que ele escrevera para o programa… Eduardo Blanco-Amor lembrou com ternura o seu amigo Lorca e disse que o assassinato de Federico tinha sido um deicídio. Uma palavra nova para mim. A Morte de Um Deus e, se os Deuses existem, e passaram pela Terra, Lorca foi, com toda a certeza, um deles. Blanco-Amor fora amante do poeta. Ian Gibson fala desse amor no seu livro ‘Lorca y el Mundo Gay’, num capítulo dedicado ao autor galego.”

Zé Mário faz alusão ao espectáculo “Yerma”, de Federico García Lorca, pelo Teatro Experimental do Porto (TEP), com encenação de Xosé Blanco Gil, na década de 80. Blanco Gil encenaria mais tarde “Retábulo do Amor Profano”, a partir de três peças para títeres/fantoches, de Blanco-Amor, com tradução do dramaturgo açoriano Norberto Ávila.

Entre as muitas curiosidades de Eduardo Blanco-Amor, contam-se as suas vivências no porto chileno de Valparaíso (retratadas nas suas crónicas), lugar que, nas palavras de Neruda, é o espaço dos marinheiros que “besan y se van”: “Amo o amor dos marinheiros / que beijam e vão embora. / Deixam uma promessa. / Não voltam nunca mais. / Em cada porto uma mulher espera: / os marinheiros beijam e vão embora. / Uma noite se deitam com a morte / na cama do mar” (“Farewell”, de Pablo Neruda).

 

Notas:

1 – Federico García Lorca foi assassinado em 1936, no início da Guerra Civil Espanhola, que terminou em 1939. Por isso, em 2026 assinalam-se os 90 anos do seu assassinato e do início da Guerra Civil.

2 – Filme “La Bola Negra”: os realizadores são Javier Calvo e Javier Ambrossi. O filme estreou em Espanha a 25 de Setembro de 2026. Os números de cerca de 610 mil espectadores e 4,7 milhões de euros correspondem ao primeiro fim-de-semana de exibição, não ao total acumulado do ano.

O poeta Federico García Lorca. (pstu.org.br)

Roberto Merino

Roberto Merino Mercado nasceu no ano de 1952, em Concepción, província do Chile. Estudou Matemática na universidade local, mas tem-se dedicado ao teatro, desde a infância.

Depois do Golpe Militar no Chile, exilou-se no estrangeiro. Inicialmente, na então República Federal Alemã (RFA) e, a partir de 1975, na cidade do Porto (Portugal). Dirigiu artisticamente o Teatro Experimental do Porto (TEP) até 1978, voltando em mais duas ocasiões a essa companhia profissional. Posteriormente, trabalhou nos Serviços Culturais da Câmara Municipal do Funchal e com o Grupo de Teatro Experimental do Funchal.

Desde 1982, dirige o Curso Superior de Teatro da Escola Superior Artística do Porto. Colabora também como docente na Escola Superior de Educação de Paula Frassinetti, desde 1991. E foi professor da Balleteatro Escola Profissional durante três décadas.

Como dramaturgo e encenador profissional, trabalhou no TEP, no Seiva Trupe, no Teatro Art´Imagem, na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto (UP) e na Faculdade de Direito da UP, entre outros palcos.

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