SE ME QUISERES CONHECER - NOÉMIA DE SOUSA: BIOGRAFIA LITERÁRIA, de Nelson Saúte, é uma biografia comemorativa dos 100 anos do nascimento da moçambicana Noémia de Sousa (1926-2002), autora dos 46 poemas, escritos entre 1948 e 1951, que compõem o livro SANGUE NEGRO.
Saúte faz uma imersão poética e histórica na obra de Noémia de Sousa e, sem perder o rigor documental, emociona o leitor com suas lembranças e comentários sobre a vida e a obra da "Mãe dos Poetas Moçambicanos".
SE ME QUISERES CONHECER: NOÉMIA DE SOUSA – BIOGRAFIA LITERÁRIA
EDIÇÃO: MARIMBIQUE
AUTOR: NELSON SAÚTE
SOBRE NOÉMIA DE SOUSA
Carolina Noémia Abranches de Sousa nasceu na Catembe, Maputo, a 20 de Setembro de 1926, e faleceu em Lisboa (Portugal) a 4 de Dezembro de 2002. Foi jornalista. O essencial da sua obra poética foi produzido entre os anos 1948 e 1951, destacando-se a sua colaboração no periódico O Brado Africano.
Voz emancipada e emancipadora, Noémia de Sousa é considerada a primeira manifestação da poesia de raiz marcadamente moçambicana. No início da década de 50, perseguida pela PIDE, é forçada a exilar-se em Portugal. Os poemas indignados, esse grito de revolta, esse apelo à emancipação, as suas acções de subversão política, na companhia de outros jovens, os artigos que redige, alguns dos quais cortados pela censura, estão na origem do cerco e da impossibilidade de permanecer em Moçambique.
Agostinho Neto, Amílcar Cabral, Francisco José Tenreiro, Lúcio Lara, Marcelino dos Santos ou Mário de Andrade são alguns dos seus companheiros de jornada no exílio e no sonho libertário. Estamos no dealbar dos movimentos de libertação. Será obrigada a partir de Lisboa, nos anos 60, dado que em Portugal torna-se impossível permanecer. Viverá exilada em Paris nesse período até à véspera do 25 de Abril de 1974. Em 1984, trinta e três anos depois de partir, revisita Moçambique. Nessa altura, os jovens já a haviam reivindicado, lendo os seus poemas, declamando-os nos saraus, escrevendo sobre ela e apropriando-se da sua obra. Voltará mais vezes ao país que a viu nascer.
Os seus textos avulsos circularam em jornais, revistas e antologias ao longo de cinco décadas e estão na base da influência de gerações de poetas moçambicanos e africanos. O seu único livro Sangue Negro, que permaneceu inédito durante 50 anos, seria publicado, inicialmente, pela Associação dos Escritores Moçambicanos, em 2001, aquando dos 75 anos da autora. Em 2011, a Marimbique reeditou a obra, para assinalar os 85 anos do nascimento de uma das referências fundacionais da literatura moçambicana. Em 2016, a editora brasileira Kapulana deu à estampa os poemas de Sangue Negro, numa edição ilustrada. Existe uma tradução francesa (Sang Noir) de Elisabeth Monteiro Rodrigues publicada pela Project-Iles Editions em 2024.
SOBRE NELSON SAÚTE
Nelson Saúte nasceu em 26 de fevereiro de 1967, em Maputo. Formado em Ciências da Comunicação pela Universidade Nova de Lisboa e mestre em Sociologia pela USP (Universidade de São Paulo) no Brasil, é jornalista, poeta, escritor, memorialista e curador. Foi professor universitário. Fundou e dirige o Museu dos Portos e Caminhos de Ferro de Moçambique (CFM). Apresenta, semanalmente, na RTP-África, a rubrica “Livros de África”. É autor e organizador de antologias sobre literatura moçambicana. É editor da Marimbique em Maputo.
SOBRE A OBRA:
Penso que tenho o dever de partilhar o pouco que sei e conheci de Noémia de Sousa e do privilégio que tive no convívio de anos com ela e com a sua geração. O meu esforço memorialístico advém da consciência desse encargo e da irremediável dívida que tenho destes meus antepassados literários.
Noémia de Sousa é a nossa voz primordial. Voz indignada, colérica ou enfuriada, contra a resignação e contra as injustiças sociais. É a consciência do ser moçambicano e da sua condição. É uma voz insubmissa e intrépida. A voz do grito. Do grito negro, mestiço, solitário e solidário.
Voz livre e libertária. Voz e condição primeira da poesia moçambicana. Voz fundadora. Entre os 22 e os 25 anos, em três anos, entre 1948 e 1951, escreveu a poesia que constitui hoje o seu espólio. O nosso espólio. O espólio da moçambicanidade. O espólio da africanidade.
Aqui fica a sua voz: ímpia, brutal, feroz, instintiva, brava, indócil, laboriosa, perseverante, que, na sua ferocidade juvenil, com uma espantosa maturidade, funda a nossa lírica, a poesia moçambicana.
É, ao mesmo tempo, uma voz esplendente, deslumbrante, magnificente. Assombrosa e portentosa. Voz de todos, a voz de Noémia de Sousa. Uma voz sublime, a de Sangue Negro.
Este breve livro — de título Se Me Quiseres Conhecer — é uma homenagem a um dos seus belos poemas, é memória afectiva e literária, uma breve biografia poética, que intenta justamente isso: elevar o nome de Noémia de Sousa nos seus 100 anos.
É preciso lembrar, celebrar e festejar sempre Noémia de Sousa.
Nelson Saúte