Porto recebe apresentação do livro Portugal: da Ditadura à Democracia
No próximo dia 10 de outubro (sábado), o Porto recebe a apresentação da obra Portugal: da Ditadura à Democracia.
O livro, concebido pelo historiador da diáspora Daniel Bastos a partir do espólio fotográfico de Marques Valentim, uma das figuras mais relevantes do fotojornalismo português, será apresentado às 16h00, na Livraria Cooperativa UNICEPE. Ao longo da sua carreira, Marques Valentim acompanhou alguns dos momentos mais decisivos da história contemporânea portuguesa durante o processo de transição e consolidação do regime democrático.
A obra é publicada numa edição bilingue, em português e inglês, com tradução de Paulo Teixeira e prefácio de João Soares, antigo presidente da Câmara Municipal de Lisboa e ex-ministro da Cultura. A apresentação estará a cargo do reputado jornalista e comentador Carlos Magno, numa sessão que decorrerá naquele emblemático espaço cultural da cidade Invicta, historicamente associado aos valores da liberdade, da cultura e da solidariedade.
Realizado com o apoio institucional da Fundação Mário Soares e Maria Barroso, o livro tem vindo a ser apresentado em diversas localidades do país e junto das comunidades portuguesas no estrangeiro. Nesta obra, Daniel Bastos dá a conhecer o singular espólio fotográfico de Marques Valentim, reunindo mais de duas centenas de imagens entre fotografias emblemáticas, registos menos divulgados e fotografias inéditas. Com notável sensibilidade, o fotojornalista captou acontecimentos e protagonistas marcantes da sociedade portuguesa no último quartel do século XX.
A partir das memórias visuais do antigo fotocine, que registou o conflito colonial em Moçambique e integrou, durante mais de três décadas, redações de jornais de referência em Portugal, são retratadas as vivências da guerra, bem como um universo humano intenso e diversificado, composto por populações locais, olhares expressivos e paisagens luminosas da então província ultramarina.
A obra aborda igualmente a chegada e o difícil processo de integração dos chamados “retornados” após o 25 de Abril de 1974. Pela lente de Marques Valentim, são também documentados alguns dos momentos mais marcantes do processo revolucionário, desde o 11 de Março e o “Verão Quente” até ao 25 de Novembro de 1975, um dos episódios mais significativos e debatidos da Revolução Portuguesa.
O olhar atento de Marques Valentim não se limita, contudo, aos grandes acontecimentos políticos. Ao captar as expectativas, as tensões e as transformações de uma sociedade em rápida mudança, o fotojornalista revela igualmente a dimensão humana da transição democrática. Nas suas imagens surgem não apenas figuras incontornáveis da democracia portuguesa e do processo de integração europeia, mas também os quotidianos de trabalhadores, famílias e comunidades do Portugal profundo nas décadas de 1970 e 1980, bem como as vivências de emigrantes que, fugindo à pobreza e à guerra colonial, partiram em busca de melhores condições de vida.
Num tempo em que Portugal vive há mais anos em liberdade do que viveu sob a ditadura, esta obra propõe uma reflexão sobre o regime ditatorial, a mudança política e os caminhos que conduziram à consolidação da democracia, a partir das memórias visuais de Marques Valentim, autor de um dos mais relevantes testemunhos do fotojornalismo português sobre o 25 de Abril.
Ao promover um conhecimento mais aprofundado do passado recente, o livro afirma-se como um importante exercício de memória e cidadania, particularmente relevante num contexto nacional e internacional marcado pela emergência de movimentos populistas e extremistas que, com frequência, põem em causa alguns dos valores e princípios fundamentais das sociedades democráticas.
Segundo João Soares, autor do prefácio, este livro-álbum «constitui um contributo importante para a nossa memória coletiva. Para aqueles que viveram os tempos aqui retratados, representa um reencontro com momentos marcantes da nossa história. Para os que não os viveram, oferece uma oportunidade rara de os conhecer, ver e compreender, através do olhar atento e sensível de quem soube, e teve a oportunidade de estar presente».
Nascido após a Revolução de Abril, Daniel Bastos é autor de diversas obras dedicadas às memórias da ditadura, ao processo de construção da democracia e à história da emigração portuguesa. O seu percurso tem sido marcado pelo contacto direto com as comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo, afirmando-se como um investigador atento às dinâmicas da portugalidade contemporânea.
Marques Valentim, nascido em 1949, cumpriu o serviço militar obrigatório em Moçambique entre 1972 e 1974, como furriel miliciano na especialidade de fotocine. Após o regresso a Portugal, na sequência do 25 de Abril, iniciou uma carreira de destaque no fotojornalismo, acompanhando alguns dos momentos mais decisivos da vida nacional durante o processo de transição e consolidação da democracia portuguesa.
O fotojornalista português Marques Valentim (ao centro), acompanhado pelo historiador da diáspora Daniel Bastos (à direita) e pelo tradutor Paulo Teixeira, no centro histórico da cidade do Porto