OS “FARYIA’S”

Quarta-crescente 550, Risoleta C. Pinto Pedro

OS “FARYIA’S”

Em Lisboa, apesar de tudo, ainda se consegue sentir a solidariedade de vida de bairro. Quando desço a minha rua, que desemboca junto de uma paragem um autocarro, daqueles autocarros pequenos que fazem o circuito apenas na zona, muitas vezes há um senhor na varanda por cima da paragem tendo uma perspetiva do início da rua de onde surge o 13B, que me avisa, pois normalmente não espero, já estou habituada a subir e a descer a colina, e grita lá de cima que o autocarro está quase a passar, pois consegue vê-lo do seu observatório. Por sua vez, ali mesmo, à porta da loja bengali onde costumo comprar coisas, o vendedor vem dizer-me que chegou pão fresco, se quero que mo guarde. Ele que, cada vez que entro acompanhada de um menino, mal o vê já está a gritar o nome dele, com alegria. Uma vez ofereceu-lhe uma banana e de outra vez uma manga. Manga que pôs na minha conta, o que me pôs a rir sozinha. Paguei a manga, não a banana, talvez pensando que para oferta já chegava. Chama-se “Faryia’s”, a loja, acrescentando o sentimento de acolhimento e de humanidade com nome tão sonoramente português.

Quando joga a selecção rodeia o passeio com bandeiras de Portugal e no dia seguinte veste, literalmente, a nossa camisola. Outras vezes, a do Benfica. Suponho que se a loja fosse no Porto, vestiria a do Futebol Clube do Porto, contudo, não deixa de ser extremamente gentil, o gesto, a contrariar o preconceito contra os imigrantes.

Quando vou ao Porto, sendo turista, pois não tenho aí casa, não me sinto tal. O sentimento é o de ser habitante da cidade, tal o grau de acolhimento dos portuenses. Somos todos um pouco imigrantes, dentro ou fora da nossa terra. Até há quem o sinta dentro da sua casa. Somos todos imigrantes, falta-nos, a muitos, sermos… Faryia’s…

 


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