RECORDAÇÕES DE LISBOA NOS ANOS 1962/1963

António Augusto Menano

Nos anos sessenta do século passado havia um interesse grande pelo cinema. Foram criados Cineclubes. Neles a recusa do salazarismo, das brumas escuras da perseguição e do medo cresciam. Na mesma luta, os clubes de campismo.

A minha vida tem sido, chamemos-lhe assim, movimentada: Figueira da Foz, Coimbra, Lisboa, Macau, Lisboa, Figueira, Macau, Figueira.

Começo a contar.

Da Figueira foram para Lisboa, estudar, trabalhar, João César Monteiro, Carlos Saboga, eu. Todos diferentes. Todos iguais. Aqui o lugar-comum acerta. Liamos, escrevíamos, antifascistas, sonhávamos ser realizadores de cinema. 

No Inicio dos anos 60 reuníamo-nos no café SAN REMO, com António Pedro Vasconcelos, que passava as "férias" na Figueira, e com Seixas Santos, não o diplomata de quem ainda não havia notícia.

Colaborávamos todos na Revista Imagem, dirigida por Ernesto de Sousa. 

Conversas constantes, divergências, sobre cinema. René Clair, Renoir, Bresson, Hitchcock, John Ford, Nicholas Ray, Rosselini, a nova vaga francesa a despontar, o cinema japonês a ser revelado, sei lá já de quem. Liamos Baudelaire, Rimbaud, Aragon, Sartre, Camus, Simone de Beauvoir, Ernest Hemingway, John Steinbeck, José Gomes Ferreira, Manuel da Fonseca, poesia 61, os surrealistas, Carlos de Oliveira, amigo e o preferido pelo César. 

Passeava de noite com Luisa Neto Jorge. Quase todos escrevíamos poemas. Íamos ao Cineclube Universitário de Lisboa. 

O Direito, o meu e do António Pedro Vasconcelos estava esquecido.

O Carlos Saboga seria o mais politizado. Lia Marx, Fidel de Castro, Mao, em francês. Livros comprados na cave da livraria/ papelaria 111.

 Entretanto João César Monteiro e António Pedro obtiveram bolsas para irem estudar cinema no estrangeiro. Partiram. Carlos que já havia sido preso, deu o "salto" (1965). Diluído numa equipa francesa de cinema.

Cabe referir que o seu pai, militante do P.C.P., esteve preso 15 anos.

Eu casei e regressei à Figueira.

Sou o único do grupo que nunca realizou um filme. Limitei-me a escrever sobre cinema para Vértice, Imagem, Celuloide, Via Latina, jornais, programas de Cineclubes.

Saboga vai para Paris. Participa nas barricadas de Maio de 68, como "soldado raso". Com José Mário Branco e portugueses antifascistas exilados ocupam a Casa de Portugal.

Perseguido, foge para Itália, onde fica 7 anos, Argel,1 ano, regressa a Paris. Morre lá, 50 anos depois, em 27 de Fevereiro de 2026.

O Carlos só depois dos 70 anos realiza dois filmes, "Photo" e "Uma Hora Incerta", premiado em Viena, em 2015, com o Prémio do Júri.

Como argumentista escreveu para António Pedro Vasconcelos, (cito “O lugar do Morto” e “Jaime”), Luis Galvão Telles, José Fonseca e Costa, Mário Barroso, Fernando Lopes, Raul Ruiz, Vitória Sarmiento, Claude Feraldo, Giuseppe Ferrara (1969), Jacques de Croquant, Stello Lorenzo.

Em 2023 é distinguido pela Academia Portuguesa de Cinema com o Prémio Sophia Carreira "pelo impacto incomensurável que teve no cinema português".

De João César Monteiro, da sua genialidade, falar para quê?

Refiro mais Carlos Saboga porque nos últimos anos conversamos telefónica e digitalmente. Ele em Paris, eu em Portugal ou Macau.

De Antonio Pedro Vasconcelos, da sua importância no cinema contemporâneo, também será ocioso referir. Estivemos juntos em Lisboa um ano antes de morrer. 

Termino. Eu e o Carlos tínhamos combinado encontrarmo-nos em Paris aos 90 anos. Ele faleceu com 89. Que completarei em Maio.

A memória faz-nos despertar. Avisa. O futuro chega depressa.

Oxalá todos nós possamos continuar a celebrar a liberdade e a paz. Tão ameaçadas.

Macau, 7 de Março de 2026

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