MATRIOSKA

Quarta-crescente 541, Risoleta C. Pinto Pedro

Não simbólica, mas quase literalmente, é este texto de uma escritora sobre o livro de outra escritora sobre uma poetisa. Falo de Maria Estela Guedes, e do seu livro Na Casa de Maria Azenha, tratando da Poesia desta.

Um livro sobre a poesia de Maria Azenha é de saudar, de reverenciar e de aclamar, porque a sua poesia, figura de luz, tem de vir, cada vez mais, à claridade. Não tanto por ela, mas por nós, e Estela Guedes, sem que o explicite, vai referenciar este propósito com a sua leitura. Leio e saboreio de antemão que este livro será pôr Pérola sobre Pérola.

Escrever sobre Maria Azenha não é só escrever sobre a poetisa, há também uma ensaísta, uma pintora, uma declamadora, uma mulher da ciência, a física, a matemática.

Acima de tudo, como muito bem diz Estela, o que há a evidenciar é a arte da grafia nas suas várias formas, e também na oral, uma espécie de geometria no espaço, diria eu, ainda que não se trate de uma poesia asséptica, mas sim atenta ao dever cívico de cada um para com cada um e para com tudo o que se passa no mundo, do mais liliputiano ao universo global. Do supermercado às galáxias, da quietude à guerra.

Estela chama, às várias formas com que se expressa Maria Azenha, signos em movimento. E ora se detém numa passagem de um poema, ora evidencia um poema inteiro, ou ainda abarca todo um livro, como subitamente se detém numa palavra que abrange toda a Obra.

Este livro de Estela sobre esta Poetisa Maior é um múltiplo prazer, no mínimo um duplo prazer, trata-se de uma escrita clara e luminosa sobre outra escrita irradiante e ominosa.

Relembra-nos como a poesia de Maria Azenha é familiar e grandiosa, misteriosa e comovente, declarativa e musical como um fado de Coimbra, a cidade onde nasceu, acompanhado pela guitarra do país que escolheu.

A análise de Maria Estela Guedes é ágil, clara e não simples, mas profunda e ramificada pela complexidade da poetisa. Por isso, Estela não se limita à geometria ou à musicalidade, aprofunda-se igualmente na semântica, e com tudo isto mostra a maneira tão própria de Maria Azenha moldar o verbo.

Poderá alguém perguntar: para quê ler um livro sobre a poesia quanto temos a poesia?

Porque não se trata de um qualquer livro, nem de um qualquer autor, muito menos de um qualquer referente. É uma excepcional analista mergulhando numa excepcional poetisa. O efeito é exponencial, como Maria Azenha, a matemática, poderia explicar-nos. E a visão é prismática: do que há de lírico, sociológico, político, irónico e satírico ou confessional, pois tudo isto é Maria Azenha. Mas muito mais. E Estela viu-o muito bem.

Complementa perfeitamente a análise crítica, uma belíssima entrevista de Maria Azenha dada a Estela Guedes, perguntas como quem mais ninguém faria, respostas como só ela sabe dar. Termina o livro uma completíssima lista bibliográfica, que vai das inúmeras obras próprias à participação em antologias, tradução, profusas e diversas participações e ainda intervenções na área da música.

Chama-se este precioso livro “NA CASA DE MARIA AZENHA”, a autora é a Maria Estela Guedes, e está publicado em “Edições Esgotadas”, na sua “Colecção Universitas”.

Termino como iniciei, com a ideia de Matrioska, presente no grandioso poema “TÚMULOS SEM MÁRMORE”:

“Cabeça de mulher encontrada dentro de saco plástico.

Saco de plástico encontrado no bolso de um homem.

Esse homem outrora escreveu uma redacção

com uma frase

a frase foi encontrada na barriga da mãe.”


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