Prefácio
Este trabalho de poesia e prosa reúne um conjunto de vozes que, na visão do meu amigo e autor Augusto Canetas, são prolongamentos da sua própria consciência literária. Nevesdavila, Augusto Canetas, Antão Feirinhas e José Costa não surgem apenas como assinaturas alternativas, mas como verdadeiros heterónimos, entidades com respiração própria, dotados de mundos interiores que se entrecruzam no vasto território da escrita. Augusto Canetas, com a serenidade dos que conhecem o labor do espírito, o “poeta não morre, o poeta sonha”. E talvez seja justamente nesse sonho, que nunca se extingue, que reside o seu gesto mais humano e, simultaneamente, mais transcendente.
Confesso que me sinto, por vezes, demasiado pequeno ou até débil sobre o sonho de Augusto Canetas. Há nele uma densidade interna, uma espécie de vibração secreta, que me ultrapassa. Mas essa consciência da minha própria pequenez não me impede - antes me impele – reconhecer, ao ler a sua poesia e a sua prosa, a dignidade que lhe é devida. As palavras valem o que valem, como o próprio diria, mas não deixam por isso de merecer toda a minha consideração e respeito. Elas revelam-se como janelas abertas para o interior de um homem que escreve não para se exibir, mas para se encontrar.
No poema “Pergunta-me” há uma declaração quase desinteressante na sua simplicidade:
“se me vires cabisbaixo, triste, melancólico, não me perguntes porquê,
pergunta-me antes como foi o meu dia…”
Nesta frase, encontramos, na primeira pessoa, a essência da convicção e uma paixão profunda pela experiência de ser. É como se o poeta nos dissesse que há tristezas que se explicam, apenas habitam; que há silêncios que não se reclamam, interrogam-se apenas pela presença. É nesse território íntimo, onde a vulnerabilidade se assina como forma de verdade, que Augusto Canetas se revela inteiro: sonhador, inquieto, confessional e sempre fiel ao mistério que o move.
Este livro, com o título “Onírico” não pretende oferecer respostas prontas, mas antes abrir fendas. Suscitar inquietações e insistir nas perguntas que, tantas vezes, evitamos formular. Num mundo que parece ter perdido os seus valores fundamentais, onde as certezas rareiam e as sombras se prolongam, a esperança tornou-se um gesto de resistência, um navio teimoso que, apesar da névoa e das adversidades, persiste em espreitar o horizonte à forma de um rumo.
Antão Feirinhas