Micro-APRENDIZAGENS PARA FORMAR micro-CÉREBROS
Quarta-crescente 542, Risoleta C. Pinto Pedro
Choquei há dias com um anúncio baseado no conceito de “microlearning”. Este conceito é uma forma de aprendizagem online que consiste em pequenos módulos de conteúdos que podem ser concretizados em poucos minutos. Com base nisso, alguém se lembrou de criar um negócio propondo leituras, não de livros, mas de resumos de livros. Só o facto de alguém ter imaginado um negócio assim, já é sintoma de pequenez, pois muito antes dos negócios, já os meus ex-alunos, nem todos, felizmente, e nem sequer os mais brilhantes, tinham descoberto que era mais rápido ler um resumo do que a obra completa. Nem sempre, devo dizer, com muito proveito, pois nem beneficiavam do que a leitura de uma obra proporciona, nem dos resultados académicos e respectiva avaliação, porque não se pode comparar a atitude, o pensamento e o discurso de um aluno que leu uma obra com o de outro que apenas a “conhece” pelo resumo, uma espécie de refugo. Mas dentro de objetivos estreitos, pode ter funcionado num caso ou noutro. Havia mesmo edições com resumos das obras, contendo igualmente as respetivas análises, era um negócio, tudo bem mastigadinho, mas sem a criatividade dos temperos próprios, o que é uma pobreza que só pode avaliar quem se mete por trilhos nem sempre fáceis, mas sempre recompensadores quanto aos resultados internos e externos. Agora aparece alguém a propor, num cenário de indigência intelectual, a quem tenha 15 minutos livres, que os dedique à leitura de um resumo. Ao que nós chegámos! Mais vale dormir uma micro-sesta, sempre nos encontramos com algum sonho, muito mais útil para a alma do que um resumo. Resumos são micro-aprendizagens para fabricar micro-cérebros. Que é o que interessa aos que mandam no mundo.
Porque ler um livro é uma experiência. E uma experiência vai sempre, obrigatoriamente, criar sinapses, relações conceptuais e ampliação das formas de pensamento às emoções e ao sentimento. Ficamos necessariamente maiores, não espacialmente, mas, sem dúvida, em termos da nossa vida interior, o que tem necessariamente repercussões no nosso entorno.
Não sei, não compreendo mesmo, para que serve ler resumos, essa exposição rápida de algo que levou meses ou anos a contruir. Onde já não está, não pode estar, a alma.
O contrário disso é o “devagar”. Por alguma razão Évora vai, soube-o por uma querida amiga, a poetisa Maria Sarmento, propor o “dia nacional do vagar”. Eu até acho que deveria ser proposto para património imaterial da humanidade. Não será por acaso que o soube por uma poetisa. Vejo-o como símbolo. A poesia é contrária a pressas, ao abocanhamento. Sem respiração, sem sabor, sem contemplação. E nunca me fez tanto sentido um dia nacional, porque nele estão contidos todos os dias nacionais e mundiais que valem a pena, como o da mãe, o da criança ou o da paz. Não há mãe nem há paz sem vagar. Uma criança nunca tem pressa, a não ser para ir brincar, isto é, para aquilo que faz devagar, como sendo a única e a última actividade do mundo. Salvífica. Que é. Uma guerra destrói num segundo, mas a paz demora muito tempo a repor, como o amor de uma mãe demora uma vida a compreender. E sinceramente, não acredito que haja sobrevivência, para esta humanidade, se não absorver e viver este conceito de viver vagarosamente. Talvez daí venha a ideia contida mo mito do V Império, de Portugal como luz para o futuro do mundo, e eu iria ainda mais longe, de Portugal enquanto Alentejo, com sua sesta e seu vagar. Onde cabem livros inteiros, amor vagarosamente saboreado com os olhos do coração.
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