MAIS UMA “IDEIA” DE LUXO
Quarta-crescente 540, Risoleta C. Pinto Pedro
Aconteceu, neste primeiro mês de Janeiro de 26, a apresentação da recente revista A IDEIA, fundada pelo notável João Freire e desde 2013 magistralmente dirigida por António Cândido Franco, como se pode verificar. Actualmente, com Mara Rosa como assistente da produção editorial. “A Ideia” é hoje um marco incontornável no mundo das publicações culturais contemporâneas. Num tempo em que, salvo raras excepções, estas ou acabam, ou perdem qualidade rendendo-se ao mercado, é consolador assistir à vitalidade desta revista que, mantendo-se na linha do pensamento anarquista com que nasceu, é muito mais que isso, é um documento cultural, estético, histórico e filosófico grávido de informação e profundidade sob a forma de reflexão e de arte.
Esta apresentação teve lugar no espaço “Casa do Comum” na Rua da Rosa, por ser esta sessão dedicada a homenagear José Pinho e António Ferreira. Dizer José Pinho é o mesmo que dizer Livraria “Ler Devagar”. Impossível não entrar na livraria, durante o percurso pelas escadas, subindo ou descendo ao e do auditório onde se desenrolou a apresentação. Entrar na livraria é uma sensação de conforto, por espaçada e luminosa, e esta iluminação de que falo não é apenas causada pela claridade que entra pelas janelas ou pelas luzes interiores, mas pelos próprios livros que a habitam. É uma livraria em grande parte dedicada a fundos de catálogo, apetece ficar ali muito tempo a investigar os títulos, e a sensação é muito semelhante àquela que se tem quando se entra na livraria da Unicepe. Livrarias ricas, plurais, cheias de livros com ar de serem muito amados, não tratados a monte como mercadoria desqualificada, mas distintamente amados, cada um por si.
Uma vez no auditório já repleto, a sessão foi aberta, como sempre com muita competência de erudito e de professor, por António Cândido Franco, seu diretor, num discurso pedagógico e inspirador, tendo-se seguido o testemunho de dois familiares dos homenageados. Depoimentos sóbrios e ao mesmo tempo emotivos, contagiantes. Pouco ou nada sabia de António Ferreira, primo e amigo de José Pinho, mas fiquei com uma imensa curiosidade pelo seu legado intelectual.
Seguiram-se leituras de Mara Rosa, expressivas e motivadoras para futuras leituras. Mara vem-se revelando importante colaboração, quer ao nível do conteúdo, quer no processo de construção da revista, como o atesta em desenho, fotografia, poema, reflexão, transcrição, organização… e como também foi possível a quem esteve presente, no visionamento de um impressionante trabalho fílmico de sua autoria sobre a história da revista. Já tinha sido possível vê-lo na anterior sessão na Biblioteca Nacional, aconteceu novamente este ano, em versão ampliada.
Como é habitual, também este número apresenta suplementos, sendo três os que acompanham este triplo número de Outono de 2025: um caderno testemunhando heranças do Maio de 68, em debate que aconteceu na Biblioteca Nacional a 15 de Outubro de 2024, um outro contendo cartas de Cruzeiro Seixas a Carlos Mota de Oliveira com um ensaio de José Manuel de Vasconcelos, e um terceiro suplemento intitulado Poesia das Florestas, contendo nove vozes femininas.
Destaco as ilustrações, entre outros, da autoria da jovem Ariana Vitorino, pelo talento que já anteriormente se tinha mostrado precoce, mas que agora exulta em resplendor.
Concluo, aqui deixando um texto que escolhi para uma leitura que fui convidada a fazer. Esse e tantos autores me chamavam pelo nome quando as minhas mãos passavam pelas páginas e os saudavam, se tantos lamentei ter de deixar para trás, por respeito à organização, ao espaço e ao tempo e aos presentes, umas linhas houve a que não consegui resistir. Aqui as deixo, e melhor não saberia dizer do que elas, pela actualidade perante o tempo que estamos a viver:
«[…] Se o caos fosse o destino fatal da humanidade, compreender-se ia a prática da violência. Nós pensamos, porém, que o sentido da vida se faz pela superação do sofrimento através dum acréscimo contínuo de harmonia e de perfeição. Daí a não-violência não ser para nós uma utopia, mas uma necessidade mesma da vida. Uma educação demasiado centrada no intelecto não nos protege o bastante do desejo de violência – e podemos com facilidade constatar que em geral uma inteligência desprovida de afecto e sem uma moral da generosidade leva à insensatez. Tanto na Grande Guerra como depois na revolução os massacres cometidos mostram bem a dimensão de loucura de que o ser humano do século XX é ainda capaz. […]»
Autoria de “Fritz Oerter, na verdade Joseph Friedrich Oerter (1869-1935), foi um tipógrafo empenhado desde 1890 na corrente anarquista do movimento operário alemão e que morreu num campo de concentração nazi.”
Uma última nota, mas não menos importante, para o decisivo e marcante trabalho de Luiz Pires dos Reys na edição gráfica com assistência de Xénia Pereira na produção gráfica, contribuindo para a perfeição da Taça que contém o Licor, ambos se confundindo numa alma única.
risoletacpintopedro@gmail.com
http://aluzdascasas.blogspot.com/
http://www.facebook.com/risoleta.pedro
https://www.facebook.com/escritoraRisoletaCPintoPedro