A ESSÊNCIA DO NATAL ESBOÇADA EM LIVRO
Quarta-crescente 539, Risoleta C. Pinto Pedro
Ainda que o Natal de 2025 já tenha passado, na verdade ele prolonga-se até ao dia de Reis, e realmente, até ao próximo Natal de 2026, cujos passos já se aproximam. Assim o expressa um querido primo meu, também alentejano, que chega a deixar a árvore e o presépio montados até Junho, suponho que por nessa altura já ser mais suportável a despedida da constelação Natal, pela proximidade do seu regresso.
Depois de ter sido apresentado o meu mais recente livro em Lisboa, por David Erlich, na ESMTC, com intervenções de Carla Martins e Maria Azenha, e no Porto, na Unicepe, por Francisco Soares, ambas as sessões tendo sido magníficas, faltava baixar (subir?) ao Sul, o Alentejo onde tudo começou, e embora não sendo, de todo, um livro feminista, mas sendo, sem a menor dúvida, um livro feminino, esteve a análise sentida, inteligente e comovente da obra, assim como as leituras, a cargo de três mulheres, elas próprias criadoras com diferentes expressões: Mara Rosa, Maria Sarmento e Maria de Fátima Remédios. Livro feminino, dizia, como o Natal. O tempo em que os homens deixam a guerra, os jogos de poder, a caça e o pastoreio, para virem ajoelhar-se perante a maternidade e o seu fruto. É, portanto, o feminino que está em cena neste livro, não no sentido de se opor à dignidade dos homens, muito pelo contrário, porque pais, filhos e avós também aqui estão e aqui são vistos, honrados e amados.
Por essa razão me pareceu adequado publicar, nesta página de já tão antigo acolhimento, as minhas palavras, em Évora, sobre este livrinho que já visitou o Norte e aqui foi, igualmente, tão bem recebido. Por outro lado, se o Menino foi visitado por três Magos, neste caso foi este livro, repleto de crianças, que foi visitar três rainhas, ou Magas, ou Graças, como lhes chamei. E não poderia ter tido melhor colo na cidade de Diana.
É um livro com um prisma feminino no olhar. E o mundo que aqui surge parte do útero materno para o grande útero universal onde as estrelas são filhos e a Terra é Mãe, com tudo o que é comum ao útero e às mães: sangue e lágrimas, passando pela cozinha, com crianças ao colo ou dentro da barriga ou escorrendo, liquefeitas, pelo corpo. O olhar não é horizontal, mas de cima para baixo, quando a mãe é jovem e a criança pequena, ou de baixo para cima quando os filhos estendem os braços para as mães, ou as mães, já mirradas no último leito, erguem o olhar para os filhos tornados grandes. Mas nunca maiores do que elas. Apenas mais altos, digo, com mais centímetros.
Que me levou a escrever este livro? Que me levou, dois anos depois, a gostar de o levar a Évora? Na verdade, Évora tem aqui o valor de sinédoque. A parte do Alentejo onde plantas novas nasceram. A parte que é o todo, mundo fractal onde o todo existe na parte. Évora, talvez útero, onde encontrei irmãs que já não tenho, que dizem que não tive, mas que existiram e existem. A solidão da menina que, por muitos amigos que tenha, busca na fratria a companhia para a alquimia do amor.
Todos os nossos pais envelheceram um dia. Os nossos próprios ossos começaram a claudicar quando vimos o casal de deuses, ou imperadores, perante os quais nos inclinámos, eles próprios a vergar. Caímos-lhes então aos pés procurando erguê-los ao nível onde os vimos antes. Mas já não há suporte para sustentação. Eles desceram os degraus e nós estremecemos no nosso frágil equilíbrio. É quando surge a compaixão, o processo espelho do amor por nós no outro. Amor atrasado e impotente, para o qual há apenas duas hipóteses de salvação: o silêncio ou a criação. Ou ambos. Foi no silêncio que escrevi este livro sem saber que o fazia. Eram textos soltos que se iam agrupando de um e outro lado para que eu visse, para que eu percebesse o que estava a construir. Na margem das páginas, a eloquência dos sinais procurava fazer-se notar, até que os números se impuseram com seu Sagrado. Quando o livro pôde finalmente surgir, a grande Musa já partira. Ficou o livro órfão, como eu, e assim foi fazendo o seu caminho. Paralelamente, no Alentejo, três Musas ou três Graças nasciam para mim, cada uma a seu tempo, umas mais antigas no tempo do encontro, mas todas me tendo imprimido forte comoção a acrescentar à admiração. Este é um livro de nascimentos. E como neste livro se dá nome aos nascidos, também eu senti necessidade de dar nomes às, para mim, renascidas: Aglaia, Euphrosyne e Thalya, também conhecidas por Caritas. A claridade, o esplendor e a alegria; o esplendor e o júbilo; a prosperidade, o florescimento e a abundância. São as qualidades de cada uma. Que eu vejo em todas: Fátima, Mara, Maria. Fátima fala cantando, e faz versos onde cantam os nossos pais e avós. Mara dá linhas e formas poderosas aos arquétipos que extrai de si e de nós. Maria recolhe tudo o que se manifesta na vida e torna-o símbolo e recria-o mostrando como o melhor da arte poética, como o mais requintado texto, pode estar grávido de símbolo e não tem de ser desalmado, como está tão em moda…
Quando me surgiu o desejo de voltar ao presépio que me é sempre qualquer canto da planície, a imagem que acompanhava este regresso era sempre uma mesa de café, uma biblioteca, uma associação popular. Um lugar desses, para a menina, seria confortável, perto do povo estaria muito bem. Ela que vive em mim não podia aspirar a um lugar como o Convento dos Remédios, onde inclusivamente estivera há pouquíssimos anos pela mão do nosso querido Rui Arimateia, a participar numa homenagem a um Irmão Maior, António Telmo, e a ouvir, encantada, quem com ele privou muito mais do que eu, alguns dos quais se encontram hoje aqui.
Agora, foi a generosidade das três queridas Graças e de Ulisses Couvinha, que acrescentou a sua música, com a arte de António Couvinha no belíssimo trabalho do cartaz, que me trouxe, inesperadamente, ao Convento dos Remédios. Que belo nome para um lugar! Por isso, por aquela que aqui veio hoje não ser a escritora que assina a capa, mas a menina que realmente escreveu, sinto necessidade, até pela proximidade do Advento, a para mim mais bela época do ano, apesar de o meu presépio pessoal estar já privado de figuras essenciais como as de Maria e José, alguns dos animais e até do Menino, apesar disso, eu quis trazer um bocadinho desse presépio de onde tudo veio e com ele todos os meus avós, e representando-os a todos, o meu avô José Francisco Pinto, pai da minha mãe, que era, ou pelo menos se dizia ateu, que viveu, Graças a Deus, até à minha idade adulta, e de quem recordo, ainda muito menina, ouvir regularmente dizer que “a religião é o ópio do povo”. Foi a minha catequese que não tive. O meu avô era comunista, e a guarda entrava-lhe em casa à procura de livros ou cartazes clandestinos. Ele andou a colá-los por ocasião da candidatura de Norton de Matos e sabe-se lá que outras acções proibidas lhe atribuíram. Por sua iniciativa, reunia-se em sua casa uma espécie de universidade popular não convencional, onde ele e alguns companheiros de investigações que não tinham mais que a quarta classe, se debruçavam sobre temas científicos e cuja única regra era a de não se poder dizer mal de ninguém. Ironicamente, estes encontros tão receados pelas autoridades, eram o único sítio onde o meu avô não criticava o governo nem permitia que alguém o fizesse. Fora desse contexto, não perdia a oportunidade de o fazer. No Natal, este ateu e sobretudo anti clericalista inabalável, que tinha estantes cheias de livros marxistas, alguns dos quais herdei e se juntaram aos que já se encontravam na minha biblioteca de estudante contestatária, o meu avô, que já mais para o final da vida andava a ler sobre Budismo, quando chegava ao Natal, desde que me conheço e antes, pois assim me contavam, sentava-se à lareira… a cantar cantigas… ao Menino Jesus. O mais entusiasta no cante ao Menino. Num tempo em que se procura expulsar o Menino Jesus do Natal substituindo-o por um vendedor de coca-cola, a que eu e os meus amigos costumávamos chamar, nos tempos da faculdade, a água suja do imperialismo, como não ficar enternecida com este gesto do meu avô? E com o gesto do grande Fernando Lopes Graça também de manifesta ideologia, musicando as canções de Natal tradicionais. Nascido em Tomar, uma das terras do Templo, muito próxima de Ferreira do Zêzere, para onde o meu pequeno presépio se deslocou pelos meus dez anos e aí ficou, e onde mais tarde, já a viver em Lisboa, mas integrando uma comissão de jovens que recuperaram um teatro-enfermaria aonde levámos grupos de teatro e coros de todo o país, tivemos a grande alegria de receber a Academia dos Amadores de Música que ele fundara, mas já não dirigia, era já José Robert o maestro, e no entanto Graça acompanhou o coro nessa ida a Ferreira do Zêzere. Foi comovente, pois cantaram, para além das heróicas, algumas músicas de Natal que eu conhecia, e que, não o sabendo ainda então, viria a cantar mais tarde no coral Publia Hortensia do meu amigo, maestro e compositor Paulo Brandão.
Seriam duas dessas músicas, uma que cantava o meu avô, e outra que musicou Lopes-Graça, que hoje aqui traria, se houvesse tempo para isso, e que dedico a todos os alentejanos, mas também aos avós do norte de onde o meu avô seria originário numa geração mais recuada, a avaliar pelos claros olhos azuis que transmitiria a alguns de seus descendentes, juntamente com os cabelos louros. Não a mim, mais semita, entre o judeu, que o nariz denuncia, e o árabe, que o frisado dos cabelos não permite esconder. Dedico essas canções, dizia, a vós, aos vossos e nossos pais e avós e bisavós, e a todos os que ficaram esquecidos para trás, e aos presentes e futuros, como Ulisses, aqui presente, e especialmente a ele, mas também a todos os que continuam o legado, como a jovem Ariana. Não será por acaso que puseram estes extraordinários nomes, como Ariana e Ulisses, aos nossos jovens, em quem tanta esperança depositamos. A esperança que parcialmente perdemos em nós…
Afinal, o livro que foi o pretexto para este encontro, é disso que fala: de mães e filhos, sem descurar os pais. A essência do Natal.
Como as azevias, receita dos meus avós que lhes foi transmitida pelos pais e assim sucessivamente para trás, e cujo testemunho os meus pais me passaram.
Aqui nos juntámos em convento, a palavra latina para reunião, como lembrava o filósofo António Telmo, ele próprio nascido na Rua do Convento, em Almeida, dentro de uma estrela.
A todos agradeço, ao Convento, ao Centro de Recursos, a Ulisses e a António Couvinha, ao extraordinário ser e editor que é Luiz Pires dos Reys e sua editora Edições Sem Nome, ao António Cândido Franco, a todos(as) os(as presentes) com destaque para o Pedro, a todos os da minha linhagem física e espiritual, os hoje já invisíveis, mas que me antecederam, Mãe, Pai, Avós e todos os anteriores, e os que, embora dispersos por outros lugares, me sucedem, e finalmente, mas não menos importantes, as queridas Maria Sarmento, Mara Rosa e Maria de Fátima, que na sua extraordinária capacidade de conhecer e encaminhar o amor aonde ele precisa de se dirigir, iluminaram e superaram todos os obstáculos que sempre surgem numa organização, e permitiram que estivéssemos aqui hoje, em estado de elevação e Graça através da vibração das suas generosas análises, que, com subida honra minha, serão publicadas no meu blogue.
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